Salomé, Francisco, André, Paulo, Telmo, Tiago e Patrícia eram crianças quando enfrentaram o cancro e hoje, como sobreviventes, partilharam com o Presidente da República propostas necessárias para melhor proteger os menores com doença oncológica e as suas famílias.
À porta da Acreditar - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro, em Lisboa, uma menina de tranças pretas esperava ao início da tarde de hoje a chegada de Marcelo Rebelo de Sousa, a quem se apressou a colocar na lapela o laço amarelo que simboliza o combate ao cancro infantil.
O Presidente da República escolheu o Dia Mundial da Criança com Cancro para regressar à Acreditar, onde pôde ouvir, na primeira pessoa, o testemunho dos “Barnabés”, sobreviventes de doença oncológica na infância ou na juventude, que pediram mais proteção social e laboral para os cuidadores, um passaporte oncológico e consultas de acompanhamento médico dos sobreviventes em todo país, à semelhança do que acontece no IPO de Lisboa.
Para o final da cerimónia ficou guardada a entrega de um cheque de mais de 42 mil euros à Acreditar por Ângelo Felgueiras, um comandante da TAP que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou como sendo um “herói” e que arrecadou esta quantia com o “Esquiar por uma causa”, tendo entre novembro de 2017 e janeiro deste ano alcançado o Polo Sul em esquis num percurso de 1.100 quilómetros.
Usando a sua experiência de décadas como professor, o Presidente da República ajudou a vencer a timidez dos participantes com umas palavras iniciais e depois, o microfone foi passando de mão em mão, para que se partilhassem histórias e vivências de uma infância que ninguém sonha.
Um a um, os sobreviventes disseram o seu primeiro nome, idade atual e a idade que tinham quanto enfrentaram o cancro, leucemia na maioria dos casos.
Salomé, agora com 25 anos, tinha 12 quando lutou contra uma leucemia e recorda que a mãe tirou uma baixa para a acompanhar nos tratamentos e, depois de voltar ao trabalho, acabou por ser despedida pela entidade patronal.
“É injusto. Poderia tentar fazer-se alguma coisa para que os cuidadores não saiam prejudicados”, pediu.
Também 25 anos conta agora André -- que também aos 12 teve leucemia -, escolhendo começar por dizer que foi “uma pessoa sortuda” porque a mãe, para o apoiar durante a doença, “conseguiu um horário de 50%” e a escola foi muito prestável, tendo mesmo tido professores que foram a casa dar-lhe aulas quando não podia sair.
André foi um dos muitos que defendeu a criação de um passaporte oncológico para acompanhar os doentes, uma ferramenta “muito importante” que pode ser traduzida em várias línguas e que reúne toda a informação do seu tratamento e que pode ser consultado por todos os médicos e hospitais que visitem ao longo da vida, permitindo que os doentes possam “levar a sua história para onde quiserem”.
Telmo tem agora 19 anos e, aos sete, venceu uma leucemia, tendo confessado ao Presidente da República que ficou “um bocadinho admirado” por só haver no IPO de Lisboa a “consulta dos duros”, de acompanhamento médico dos sobreviventes, considerando fundamental que esta exista “em todo o país”.
Depois de todos os “Barnabés” terem partilhado as suas histórias, Marcelo voltou a usar a palavra para enaltecer a missão da Acreditar: sensibilizar as pessoas para esta doença.
O Presidente da República recordou que, em outubro de 2017, o parlamento aprovou uma recomendação ao Governo para que fossem tomadas medidas para garantir maior proteção aos menores com doença oncológica e respetivos familiares e cuidadores.
“A sociedade tem que ir mais longe no acompanhamento a estas pessoas”, apelou o chefe de Estado, insistindo na necessidade da criação de um estatuto do cuidador para proteger quem toma conta dos seus.
