O problema dos animais domésticos é um problema geral das sociedades modernas. Por um lado animais domésticos de companhia, em especial cães e gatos, têm funções importantes de melhoria da qualidade de vida das pessoas que interagem com eles, desde a saúde psíquica até à saúde física, incluindo o controlo de pestes como ratazanas e morganhos. Pelo outro lado um excesso de animais de companhia cria pressões sobre a sociedade e o ambiente, como bem o demonstra o Vosso artigo de capa de 2ª-feira dia 4/9 “nas patas da amargura”. Em especial o abandono dos animais, os quais se constituem errantes e mesmo ferais, tem impactos sobre a segurança de pessoas e bens (mordeduras, acidentes de viação), sobre a saúde pública (animais como portadores de doenças), assim como sobre a fauna autóctone (predação a lagartixas, aves, etc.), os quais a condição de ilha, com a sua maior vulnerabilidade ambiental e ecológica, ainda aumentam, podendo mesmo levar à extinção de espécies. Acresce que a imagem de destino turístico de excelência sofre com turistas a alertarem e intervirem relativamente ao problema dos animais errantes.

Com isto em mente propusemos à CMF em 2014 um projeto de monitorização de cães e gatos visando os objetivos que o Vosso artigo de 2017 pede: saber o número de cães e gatos no Concelho do Funchal de forma a poder sugerir medidas eficazes de controle. De fato, somente sabendo o tamanho do problema é que se pode planear, mesmo economicamente, o esforço que se necessita para controlar o problema e minimizar os impactos negativos.

O projeto foi igualmente submetido ao orçamento participativo da CMF de 2015 mas sem sucesso. Em 2016 foi possível dar início a este estudo, sendo que a CMF executou a entrevistas porta-a-porta, e nós a monitorização dos animais errantes. O estudo iniciou-se como estudo piloto para a área de São Martinho com a ajuda de um POD através da Junta de Freguesia de São Martinho com campanhas de monitorização para testar e afinar as metodologias. O plano é alargar o estudo depois a toda a área do Concelho. O estudo envolve alguma complexidade, desde inquéritos porta a porta, até transeptos nas ruas do Funchal com identificação fotográfica dos animais, sendo por isso importante que pessoas com formação técnica de dinâmica populacional o executem. No final deste ano iremos divulgar os resultados preliminares para São Martinho.

A gestão pública faz-se com base na melhor informação possível. Essa é muitas vezes fornecida pela ciência. Saber o número de esterilizações necessárias para conter a reprodução e o crescimento populacional, saber a dimensão que os canis devem ter, saber o esforço que é necessário fazer para encontrar donos para animais abandonados ou nascidos na estrada é importante para podermos usufruir desses nossos acompanhantes animais de há milhares de anos e que, quando bem tratados, tanto prazer nos dão.

Thomas Dellinger