Nestes últimos dias, temos sido confrontados por um conjunto avassalador de acontecimentos e incidentes, quase todos trágicos, situações horrendas, momentos aterradores e experiências, em muitos casos, traumatizantes. Neste tempo fortemente marcado pelo período de férias que muitos merecidamente estão a usufruir, todos estes acontecimentos provocam e abrem espaço para outro tipo de reflexões e pensamentos que, certamente, nos obrigam a ir um pouco mais longe e mais profundamente naqueles momentos de descanso e interiorização habituais, próprios e “típicos” deste período de das férias.
Desde o incidente trágico do Largo da Fonte, aos múltiplos incêndios, a grande maioria propositadamente provocados, que destroem o nosso país de norte a sul, aos atropelamentos intencionalmente mortíferos, agora nas “Ramblas” em Barcelona, há alguns dias em London Bridge, na capital britânica, passando pelos ataques em Paris, junto à catedral de Notre Dame, são tudo situações e experiências que, apesar das distintas razões, motivações e factores que estiveram na sua origem, não nos podem deixar indiferentes e “interferem” claramente na pacatez, na calma, no relaxamento, na simplicidade e na tranquilidade, que devia caraterizar este tempo, marcado ainda pelo reforço do tempo disponível para o convívio com a família, com os amigos, mas também com aqueles com quem nos cruzamos nestes dias.
Sabemos também que este período é particularmente fértil em saídas, em viagens, em intercâmbios e momentos de contacto e de relação com outras pessoas, outras culturas e outros contextos que enriquecem, não só o conhecimento que passamos a ter sobre essas mesmas realidades, como abrem para uma visão global, universal e aberta do mundo, uma atenção e respeito pelos outros, pelas suas particularidades, pelas suas diferenças, sempre no contexto mais alargado da dignidade que todo e qualquer ser humano possui.
Sabemos igualmente que este período de descanso retemperador é também uma altura particularmente propícia para, por um lado, uma reflexão avaliativa do que foi feito, ou do que foi sendo feito ao longo do período anterior, em termos profissionais e pessoais, destacando os aspetos positivos, os objetivos atingidos, os êxitos alcançados, e não negligenciando o que ficou por fazer, os aspetos menos conseguidos, e, por outro, para uma reflexão projetiva no sentido de pensar e começar a preparar os projetos futuros, de perspetivar os sentidos das diferentes realizações que pretendemos implementar na nossa vida, em vários níveis, e que nos vão trazer nova vida, novas dinâmicas, novas amizades, novas apostas no caminho que cada dia se vai construindo.
Ora, todos estes acontecimentos trágicos vêm acrescentar algumas questões pertinentes a estas reflexões especialmente presentes neste período de férias. Trazem um acréscimo de profundidade e de intensidade a estes pensamentos, pois transportam consigo o sentido da vida humana, o valor incomensurável das pessoas, a fragilidade da humanidade da nossa natureza, a presença marcante da dor, do sofrimento e da morte, e a prioridade que temos de trazer para as nossas decisões (deixando de lado aquilo que é manifestamente superficial e supérfluo) cada vez mais centradas naquilo que é essencial para a nossa vida.
De facto, a vida humana é um bem demasiado precioso que não pode ser banalizado por todos estes acontecimentos que a põem em causa, que a desvalorizam, que pretendem mesmo, cobardemente, destruí-la. As pessoas contam e devem ser respeitadas e valorizadas nas suas especificidades e não discriminadas e menosprezadas, apenas porque são diferentes, ou simplesmente porque estavam no sítio errado e na hora errada.
Convém, talvez, pensar de que modo, na azáfama correria do quotidiano, nos relacionamos com as pessoas com quem trabalhamos, com quem partilhamos espaços e responsabilidades. Aproveitamos bem os momentos felizes que construímos e que a vida nos proporciona, ou ocupamos demasiado tempo dos nossos dias com interesses e preocupações egoístas, menores e mesquinhas. Todas estas reflexões não devem estar dissociadas de um contexto mais global em que efetivamente não podemos permitir que a nossa cidadania moderna, citadina, consciente, democrática, participativa e respeitadora da Pessoa e da sua dignidade seja posta em causa. Já agora, mesmo em período de férias, vale a pena pensar nisto.