Seria tão bom se as pessoas com limitações pudessem ter ouvido o que ontem ouvi de um jovem de 18 anos. Emocionado relatou uma experiência vivida aqui na região no evento, Swimming European Open Championships, que o marcou para sempre. A força, a vontade, a motivação, a coragem que observou, em pessoas com capacidades reduzidas, fê-lo questionar o sentido das suas inquietações e sofrimento. Como se nada fosse comparável à entrega que observou nos jovens durante o evento. Estava impressionado com a atitude competitiva e com as soluções que facilitavam as dificuldades. Sentiu ainda as dificuldades que estes jovens têm para aceder a coisas simples, como ir a um concerto ou outro tipo de eventos, e como tudo seria mais agradável se os espaços lhes permitissem mais e melhor mobilidade. Observou com admiração a relação dos jovens com os seus treinadores sentindo a força das relações e o clima de cumplicidade. A certa altura comenta que se estes jovens não tivessem limitações seriam extraordinários em qualquer coisa que decidissem fazer. Esta constatação fazia-o sentir-se insignificante e os seus medos e dúvidas em relação ao futuro pareciam-lhe patéticos e desprovidos de sentido. Apesar de compreensível e extremamente importante a constatação de que existem vidas e oportunidades diferentes, foi importante que percebesse que todos temos dores e limitações e que elas não são comparáveis. As limitações físicas são, apesar de tudo, visíveis e apelam ao sentimento de interajuda e cooperação, enquanto as emocionais passam tantas vezes despercebidas, e mesmo quando manifestas são, na sua maioria, desvalorizadas e diminuídas no seu significado. Muitos dos jovens com limitações físicas estão integrados em famílias equilibradas com uma enorme capacidade de amar que investem emocionalmente nos seus filhos e talvez pela consciência do real valor da vida importam-se mais com a pessoa do que com os resultados. Em contrapartida muitas famílias com vidas comuns esperam dos seus filhos níveis de perfeição desajustados e exigem desempenhos que nunca na vida os pensaram para si próprios. Vêm os filhos como uma identidade continuada e as falhas ou desequilíbrios tocam-lhes ainda mais do que os seus próprios fracassos. Afinal, parece que evoluímos mais na sensibilidade para as pessoas com mobilidade reduzida do que para aquelas que se reduzem por não conseguirem estar à altura de tantas solicitações. Daí que, se os jovens com mobilidade reduzida pudessem usufruir das mesmas possibilidades que tantos outros eventualmente teriam as mesmas dificuldades e dispersariam igualmente na variabilidade de estímulos. Por outro lado, se os jovens com vida comum e aparentemente facilitada, como se diz por aí, tivessem um problema de mobilidade que os impedisse de prosseguir os seus hábitos e rotinas, aprenderiam a olhar a vida noutra perspectiva e seriam com certeza pessoas diferentes. De facto é tudo uma questão de adaptação, sobrevivência e resposta às exigências da vida em sociedade, em todas as suas dimensões. Crianças e jovens integrados em famílias e comunidades serão felizes se o clima que os cerca lhes oferecer a segurança e a confiança que necessitam para crescer. É certo que há ainda um trabalho comunitário profundo a desenvolver para que as pessoas com mobilidade reduzida possam integrar-se de uma forma mais saudável, exprimindo todo o seu potencial criativo, assim como há muito a fazer para que todos outros, emocionalmente em sofrimento, possam sentir por parte da comunidade o respeito e compreensão que merecem, para que, de igual modo, possam atingir os sues objectivos. É muito bonito perceber que os jovens de hoje são muito mais sensíveis do que a ideia que vai passando por aí, e que crescer em Portugal não é uma tarefa fácil para ninguém. A todos os que trabalham com pessoas impossibilitadas de usufruir em pleno da vida comum o meu profundo respeito e admiração. Vale a pena ser diferente.

Manuela Parente Psicóloga