“Capacidade ilimitada” é a primeira associação que me ocorre se pensar sobre a pessoa e a arte do músico que Elton John descreveu como “musicalmente muito à frente de qualquer um de nós”. Efectivamente, Prince Rogers Nelson representa um daqueles seres humanos cuja energia, poder de inspiração, facilidade de viver a sua vida com intensidade e intensamente, e entrega total à sua arte, já se tornaram lendários durante a sua vida. Vezes sem fim, Prince chegou a comprovar, pelo seu próprio exemplo, a sua declaração “Um espírito forte transcende as regras”. Com apenas 19 anos de idade, foi o mais jovem intérprete-produtor jamais contratado pela Warner Brothers e, mesmo se não foram bem 27, os instrumentos que ele próprio tocou no seu primeiro álbum, conforme creditado, chegou a tocar quase todos os instrumentos nos seus primeiros cinco álbuns, demonstrando que a sua vontade e o ímpeto de conseguir, foram fatores determinantes na sua vida. Que me desculpam os puristas da música erudita, mas isso faz-me mesmo lembrar o compositor russo Rimsky-Korsakov que, ao ser nomeado inspetor das bandas militares, deu-se o trabalho de aprender a tocar todos os instrumentos que integram uma banda. E mais: mesmo tendo um produtor oficial atribuído, Prince deixava-o fora das portas do estúdio e mantinha as rédeas de todas as fazes da produção, tendo ideias claras e capacidade técnica para as concretizar, tal como o fazia Wagner com as suas óperas, não deixando a ninguém intrometer-se no seu processo criativo e controlando, ele próprio, todos os aspetos da produção, desde o início até ao produto final. Talvez tenha sido essa atitude algo monomaníaca, na fonte da sua energia, que fascinava todos à sua volta: frequentemente, depois de um concerto e um jam session a seguir, ia ainda para o estúdio, para gravar às 5 da manhã. Defendia vigorosamente os direitos de autor, seus e dos colegas, pondo-se recentemente de lado de Taylor Swift na sua luta contra a exploração por parte da Apple Music. Questionava todas as fronteiras, tanto as de comportamento como as de orientação sexual, e com a sua irreverência desafiava todos os cânones da sociedade e da industria perante a qual, apesar de tudo que lhe trouxe, nunca se quis vergar. São raras e especiais, as pessoas que conseguem desta maneira transcender as categorias, fronteiras e géneros, demonstrando a sua transversalidade e universalidade, a capacidade de criação que um ser humano pode atingir. “A vida fascina-me”, disse ele vinte anos atrás. Mas é ele que continuará por muito tempo a ser uma figura fascinante e inspiradora, para todos cuja arte brota de uma forma espontânea, imprevisível e desenfreada.

Robert Andres Musicólogo