O desenvolvimento de uma sociedade moderna verifica-se pela forma como esta trata aqueles que estão em situação de dependência, necessidade ou fragilidade.

Uma terra onde muitos dos doentes são maltratados, muitos dos idosos são abandonados e desprezados, muitas crianças são negligenciadas, onde muitas mulheres são vítimas de violência doméstica, os desempregados são usados e abusados, os empregados são ameaçados e explorados e onde raramente existe o simples respeito pelo próximo, não pode aspirar a ser uma terra verdadeiramente desenvolvida. Não há desenvolvimento na doença, não há ciclos políticos de sucesso com uma Saúde desastrosa e não há sociedades desenvolvidas com sistemas de saúde ao nível do terceiro mundo. Se a R.A. da Madeira tem a ambição de ser uma sociedade desenvolvida, moderna e preparada para o presente e futuro, tem de evoluir e mudar muita coisa na sua Saúde.

Em pouco mais de um ano a nossa Saúde teve 2 Presidentes do Governo Regional, 3 Secretários Regionais, 4 Conselhos de Administração (SESARAM), 4 Direções Clínicas, 3 Direções de Enfermagem e 3 administrações no IA Saúde. Tivemos ainda 3 Governos nacionais, 3 Ministros da Saúde e mais alguns Secretários de Estado. Se somarmos a esta instável realidade a herança negra e pesada deixada no SESARAM, a manutenção em cargos importantes de pessoas com muita responsabilidade no descalabro recente, a degradação dos nossos desadequados hospitais, a contínua fuga dos médicos e enfermeiros mais qualificados, a incapacidade de atrair novos médicos em número suficiente, a manutenção de pressões e perseguições a quem tem opinião, os “castigos”, o desgaste físico e psicológico que atinge a maioria dos funcionários, a desmotivação geral nos profissionais de saúde, as constantes falhas nos medicamentos e equipamentos, a repetição de erros antigos de gestão pelos “novos” protagonistas e uma administração que não consegue dar respostas aos problemas, obviamente não podemos esperar milagres e eles efetivamente não têm acontecido. Mais dinheiro não tem correspondido a melhores resultados e o que se tem visto é que falta liderança na Saúde, falta conhecimento, falta inovação e falta pensamento estratégico para o sector.

Mudou-se apenas o suficiente para que tudo pudesse continuar na mesma. A Saúde é sempre notícia, quase sempre pela negativa e poucas palavras têm uma conotação tão negativa quanto “SESARAM”.

É preciso ter a coragem de assumir os problemas na Saúde e dar as respostas adequadas aos mesmos, com base em boas práticas comprovadas e não em “adaptações à realidade regional”, medidas avulsas e descoordenadas, que irão apenas agravar a doença da nossa Saúde.

A Saúde deve ser gerida e liderada por profissionais ligados ao sector, pelos melhores, por aqueles que possuem formação e/ou experiência em Saúde. Essas pessoas existem na nossa Saúde e uma delas até foi recentemente Presidente do CA do SESARAM e colabora diretamente com o atual Secretário.

A composição de Conselhos de Administração nos hospitais portugueses com elementos completamente estranhos à Saúde, deram origem a situações reais que levaram à morte de doentes. Foram situações evitáveis que ocorreram por erros (também) das administrações hospitalares e que foram muito mediatizadas recentemente. A gestão e a administração devem ser um exclusivo de quem tem a preparação necessária para o exercício de cargos de liderança, para que sejam dadas as respostas certas aos problemas próprios de uma instituição prestadora de cuidados de saúde.

Quem pensar que a nossa Saúde se gere como uma cooperativa, um instituto público, uma sociedade de desenvolvimento ou uma qualquer empresa pública, está completamente errado. Pensar assim e gerir assim é receita certa para prejudicar o desempenho dos profissionais de saúde e prejudicar a saúde e vida das pessoas que estão doentes e que precisam de toda a ajuda e resposta nos nossos hospitais e centros de saúde.

Não há boa Saúde sem boa gestão de todos os recursos e não há boa gestão em Saúde sem resultados positivos no bem-estar e vida das pessoas. Em Saúde, os “números” correspondem a pessoas! Quem gere a Saúde tem de ter presente que as suas decisões têm consequências na vida de pessoas reais, algumas tão doentes que a sua vida pode depender de uma simples assinatura de quem manda na Administração.

- Colaborei, de forma absolutamente gratuita(!), na Comissão nomeada pelo Governo Regional para avaliar a viabilidade técnica do Novo Hospital da Madeira e no Gabinete de Apoio Permanente à Construção do Novo Hospital da Madeira. Estou de consciência muito tranquila e muito orgulhoso do meu percurso. Fiz tudo o que podia pela saúde dos madeirenses.

Duarte Nuno Dória