Para entender a relação do Reino Unido com a União Europeia (UE), talvez ajude rever alguns dos episódios de “Sim, Sr. Ministro”, a famosa série britânica dos anos 80. Num deles, a propósito da relação com a Comunidade Económica Europeia, Sir Humphrey Appleby explica ao seu ministro que os britânicos “são pró-europeus porque, na verdade, são anti-europeus”. Vale a pena recuperar parte da pragmática explicação de Sir Humphrey: “A Inglaterra tem a mesma política estrangeira há 500 anos: criar uma Europa desunida. Dividir para reinar. Porquê mudar, se resultou tão bem? Para destruir tudo, tínhamos que entrar para lá. Tentámos destruir de fora, mas não resultou. Agora que estamos dentro, podemos fazer daquilo uma bagunça. (...) Quantos mais houver, mais zaragatas haverá, mais inútil se torna”. O ministro ainda diz que tudo isto lhe parece de um “cinismo incrível”. “Nós chamamos-lhe diplomacias”, responde Humphrey. A aparente satisfação de Donald Tusk e Jean-Claude Juncker com o acordo “justo para todos” não conseguiu esconder o desapontamento e a resignação estampadas nas expressões faciais de François Hollande e Charles Michel. Afinal, David Cameron afirmou ter conseguido “o melhor dos dois mundos”, assegurando que o “Reino Unido estará permanentemente fora de uma união mais estreita”, que “haverá duras novas restrições no sistema de segurança social para os migrantes da UE” e que “o Reino Unido nunca vai aderir ao euro”. Por outro lado, os eurocépticos britânicos afirmam que o “acordo não vale o papel em que foi escrito”. A redução dos benefícios sociais ficará dependente de uma maioria qualificada na UE e não poderá ser feita de forma unilateral. É ainda uma medida que pouco fará para reduzir a imigração para o Reino Unido, mais dependente da atracção das oportunidades de emprego. Os britânicos também não integram a Eurozona nem participam de Schengen. Afirmar que estão fora de uma “união mais estreita” não acrescenta nada e esvazia esta pretensa conquista de um real significado. Nem sequer importa se Cameron conseguiu ou não algo de substancial. Parece que apenas se mantiveram aparências. Importa perceber com que face a UE sai deste jogo e se apresenta aos cidadãos europeus. Foi o próprio Donald Tusk quem reconheceu que o “estatuto especial” do reino Unido implicou “sacrificar partes dos nossos interesses para o bem comum, para mostrar unidade”. É difícil explicar à opinião pública que um Estado Membro da UE usufrua de um regime de excepção tal que o coloque à parte de todos os demais. Um estatuto que não se ponderou para a Grécia, para Portugal, ou para qualquer outro país atingido pela austeridade e intervencionado pela troika. Passará a ideia de que os direitos sociais e o princípio da não discriminação serão sempre mais flexíveis do que as décimas orçamentais. Aqui a intransigência é absoluta. O que poderá representar este “recuo” da UE perante a crescente onda de nacionalismos populistas? Que legitimidade haverá agora para recusar medidas de excepção à Hungria ou à Eslováquia na questão da imigração? Aqui poderá estar em causa bem mais do que o manter de aparências. A UE conseguiu a promessa de que David Cameron irá esforçar-se pela permanência do país nesta união “reformada” à sua medida no referendo de Junho. Não me parece que a balança tenha ficado equilibrada. Cameron ameaçou os líderes europeus e ganhou. Estará na UE usando o princípio do utilitarismo. Jogará quando, como e com quem quiser. A Grécia e Portugal podem servir de aviso, mas não o Reino Unido. As regras não são iguais para todos. Numa União enfraquecida por uma crise económica e por uma crise migratória que puseram a descoberto egoísmos individuais, este era o (des)acordo que não deveria ter tido lugar. Cameron não ajudou a reformar a UE, mas a deformá-la. Mas, voltando a Sir Humphrey, talvez seja esse mesmo o objectivo. Londres conquistou o melhor dos mundos possível. A UE não. “Estou muito desconfiado em relação à Europa”, disse Cameron em Janeiro. Agora sentimos todos o mesmo.