José d’Olim O Padre Eduardo de Freitas Nascimento, deixou-nos a quase um mês, na noite pardacenta do dia 18 de fevereiro último, dia do seu derradeiro registo biográfico que o libertou do drama das suas vulnerabilidades físicas e psíquicas. O seu corpo, alinhado pelas quatro tabuas, manifestava as pregas dos tempos difíceis, muito longe dos anos verdes do serviço permanente aos outros, aconchegou-se subtilmente ao ventre da terra materna, no fim da manhã de 20 de fevereiro. O tempo, esse infinitamente grande, convidou-o a entrar pela porta disforme da nossa tenda intemporal, sob uma luz de um sol morno de inverno que, insistentemente naquela hora, descaía sobre as montanhas do pico do areeiro arqueadas neve. Tudo em redor, se encontrava em harmonia maior como a simplicidade do Pe. Nascimento, ratificada pelos incensos solenes de despedida, pela gratidão da família, dos amigos e do povo das paróquias por onde passou. Um presbítero de uma rara reserva de despojamento, de total doação ao serviço, servindo as comunidades numa igreja de proximidade, nomeadamente das paróquias do Arco da Calheta, Campanário, São Martinho e Nazaré, Santa Cruz e Machico. Deixou nestas paroquias muitos dos seus projetos realizados e concluídos, tendo sido em Machico, no início da década de 60 do século passado, deixado o maior legado de toda a sua intervenção de missão com a construção das igrejas do Caramanchão e da Ribeira Grande. Contava, com muito entusiasmo as démarches que ao leme do pesado desafio teve que tomar para os imprescindíveis peditórios, incluindo a viagem que efetuou às nossas comunidades radicadas nos Estados Unidos da América, a fim de regressar com um maior apoio financeiro para o desenvolvimentos das construções destas igrejas. Efetivamente, sem estes apoios, não seria possível levar a bom porto as construções destes templos, porque as dificuldades do povo destas novas paroquias era de uma miséria sofrida, sem trabalho remunerado e sem rendimentos como hoje conhecemos. Com o seu acordeão mitigava o tempo, a fome social e cultural dos seus paroquianos, levando-os a vencer velhas reivindicações junto da Camara de Machico para a concretização da abertura do caminho da murta, garantindo às comunidades locais outras condições de mobilidade. Estou convencido que, cedo ou mais tarde, a população de Machico bem como a atual vereação da Camara Municipal, prestar-lhe-ão a merecida homenagem, alterando por exemplo, a toponímia do caminho das murtas para caminho do Pe. Eduardo Nascimento. Assim, perpetuará no tempo a sua marca de um sacerdote operário, de um clérigo raso de ambições pessoais, de traje simples e usado, de uma gargalhada inconfundível e contagiante e, sobretudo, de uma solida pedagogia ao serviço de uma igreja madeirense sem exclusões. Abraçou, ainda, mais esta preocupação, muitas vezes, à revelia da cúria diocesana, procurando estabelecer pontes com outros padres de linhagem progressista e mais pragmáticos a favor de uma igreja de proximidade e recentrada nos valores da sua essencialidade. E, por fim, um aplauso intenso à sua sapiência de pedagogo, de mestre, como ao longo de muitos anos, foi capaz de atenuar a exigência da instrução militar, tornando-a mais leve e mais completa no seu contacto semanal com diversas gerações de soldados que ingressava no serviço militar na Madeira. É caso para bradar ao tempo que passa, que a sua rara humildade fê-lo grande.