Costumes e tradições cada povo as suas tem, quem respeita os seus mortos aos vivos respeita também. Quando morreu Nelson Mandela, a 5 dezembro 2013, milhares de sul-africanos saíram à rua, dançando e cantando, com lágrimas nos olhos, em homenagem ao seu herói nacional.

Quando Amália Rodrigues morreu, 6 de outubro de 1999, o povo presente no funeral despediu-se cantando fados no cemitério. Todos nos lembramos, também, da canção de Elton John, Candle in the Wind, no funeral da Princesa Diana, em agosto de 1997.

Homenagem ao liurai

No dia 30 de agosto de 2014, assisti, em Timor-Leste, a um cerimónia de homenagem à morte do liurai (chefe tradicional) Veríssimo Dias Quintas, defensor da independência de Timor-Leste, que foi barbaramente assassinado à catanada, a 27 de agosto de 1999, pelas milícias, na sua residência, em Lospalos, a cerca de 200 km de Dili.

Após a missa em sua memória, em agosto de 2014, seguiu-se um cortejo até ao túmulo, onde várias crianças, familiares e amigos depositaram flores. Alguns antigos colegas fizeram emocionados discursos. Para minha surpresa, seguiu-se um jantar, na casa do defunto, com músicas, danças e convívio pela noite dentro, até ao nascer do sol da manhã seguinte.

Arte, a morte e a vida

Tratando-se de homenagem pela morte, não pensava que ia assistir a danças e cantares, como se tratasse de uma festa de batizado ou casamento. No entanto, lembrei-me das danças e cantares a Nelson Mandela, da canção do Elton John e do funeral de Amália, que acima menciono.

Na verdade, qualquer forma de arte, incluindo a música e a dança, enquanto manifestação da vida, podem ser, também, uma digna homenagem à morte (a propósito, ver, também, o nosso artigo sobre “a arte, a morte e a vida, no DN de 4-12-2013).

Outros costumes orientais

Ao fim de um ano de luto, em Timor-Leste, as famílias reúnem em casa do defunto, assistem à missa e visitam o cemitério, onde deixam a roupa do luto na campa do familiar falecido.

Em Timor-Leste vi, também, por várias vezes, pessoas colocarem comida, tabaco, refrescos, cerveja e objetos pessoais nas campas dos familiares falecidos.

Preferível flores ou comida?

A este propósito, conta-se a história de uma viúva portuguesa, em Macau, ao colocar flores na campa do marido, viu outra viúva chinesa a colocar prato de arroz numa campa. A portuguesa perguntou à chinesa: - A que horas o seu marido come o arroz? A chinesa respondeu: - Exatamente na mesma hora que o seu marido vem ver as flores!

Este é um exemplo de que as culturas e homenagens, desde que sejam sinceras, não se discutem. Todas têm igual dignidade e igual valor. Qualquer forma de arte ou outras manifestação de vida pode ser, também, uma digna homenagem à morte.

João Luis Gonçalves