R. C. Amanheceu o dia na Ponta do Sol e quase como um rastilho de pólvora uma triste notícia vai-se espalhando, “Mãe envenena filho e suicida-se de seguida”. Primeira questão que se coloca quem foi? Primeiros comentários, que tristeza, que horror, coitados….
Um sentimento de pesar fica no ar. Não demora muito e começam as opiniões a surgir, hipóteses são lançadas, diz-se que foi assim, comenta-se que foi assado e o efeito “bola de neve”, uma teia de comentários e opiniões vão tomando forma de tornado. Não tardam os julgamentos, toda a gente planeia qual o castigo que aquela mulher merce/merecia, toda a gente aponta o dedo como se fossemos perfeitos, como se as nossas vidas fossem transparentes, como se fossemos donos da verdade, do bom senso, como se os nossos percursos de vida se tratassem de lindos panos de ceda sem nódoa.
Aquela mãe estava doente, muito doente, padecia de uma doença oncológica, segundo dizem em estado muito avançado…. Quem já passou sabe o desespero que ela sentiu! Acreditem, não é para qualquer um!
Conhecia a senhora “de vista”, conhecia bem o menino, sabem que mais?
Eram inseparáveis. Então o que leva uma mãe que ama o seu filho a cometer ato tão desesperado?
Será que foi um ato tresloucado, será que existia ali uma alma desprovida de amor, egoísmo, vingança….
O que estaria por detrás desta senhora? Teria apoio da família? Amigos?
Alguém que a reconfortasse depois de cada sessão de quimioterapia, alguém que lhe dissesse “tem fé, estou aqui”? Alguém que não a julgasse e simplesmente lhe desse a mão?
Então tentemos, colocarmo-nos um bocadinho no lugar dela, é difícil, cada um sentirá a sua maneira… mas não custa experimentar.
Somos mulheres, descobrimos que temos uma doença oncológica incurável, resta pouco tempo de vida, olhamos à nossa volta, não existe mais ninguém, apenas aquele filho. (Todos sabemos que há momentos na vida que mesmo estando rodeados de uma multidão, estamos sós, muito sós!) Pensamos, o que será dele sozinho no mundo sem mim, sabemos que vamos embora e não queremos deixá-lo à mercê daqueles que também nos abandonaram, então porque não leva--lo? Afinal quem cuidaria dele e lhe daria amor como só uma mãe sabe dar?
E justo, está certo, tinha esse direito? Questões que ficam no ar….
Ninguém sabe, do que á capaz até chegar o dia e as situações da vida se proporcionam. Por vezes pensamos e dizemos de boca cheia, jamais faria isto ou aquilo, jamais beberia aquela água, até o dia que o destino nos prega uma partida.
Deixemo-nos de julgamentos, falsos moralismos, de comentários maldosos muitas vezes vindos de quem nada faz pelo próximo! Abaixo os hipócritas!
Finalmente o sofrimento dela acabou! Que a sua alma descanse em paz!
Quanto ao menino, foi uma vítima do destino no meio de tantas outras inocentes que andam por este mundo. Agora é um anjo, encontrou de certeza um lugar melhor que este. Sim, porque ninguém que vive esta vida terrena pode encontrar pior do outro lado. De certeza que é melhor, muito melhor. Paz às suas almas!
Deixemos, nós também os nossos mundos quadrados, as nossas mentalidades que pararam na Idade Média. Falem, comentem, expressem opiniões mas sem “afundar” os outros. Tudo evolui, a mente e espírito também têm de evoluir.
Só um à parte para terminar, tenho um filho da idade do Vitor, eram próximos, à noite já cama conversávamos os dois sobre sucedido, tentava explicar-lhe o que de facto é inexplicável e de repente o meu filho vira-se para mim e diz:
“Mãe, anda toda a gente doida, falam cobras e lagartos da senhora, será que alguém já pensou, que ele, o Vitor também não queria continuar sem a mãe? Eu não queria continuar sem ti.” É Estranho, não é?
Para quem tem fé e acredita, rezemos apenas para que descansem, os dois, em Paz.