Sentei-me mesmo na última fila. Lá ao fundo, em cima do palco, um homem discursava sobre “um mundo em que a comunidade internacional deu como limitada a sua capacidade de prevenir conflitos e ainda mais a sua capacidade de os resolver atempadamente”; “um mundo em que a correlação de forças deixou de ser clara e, por causa disso, a impunidade e a imprevisibilidade tende a proliferar”; um mundo em “os conflitos se vão interligando (não todos mas os mais relevantes, a Nigéria, o Mali, a Somália, o Iémen, a Palestina, a Síria, o Iraque, o Afeganistão) e estão cada vez mais ligados ao problema de segurança global ou ao desenvolvimento de formas de terrorismo”. Nem só os conflitos armados forçam as pessoas a fugir das suas casas, das suas comunidades, dos seus países, a entregar-se a contrabandistas e a traficantes e a arriscar a vida para chegar ao grande Norte, explicava o homem. Também o aumento da população global, a urbanização caótica, a insegurança alimentar, a falta de água, as alterações climáticas, factores de aceleração de repentinos desastres naturais e de lenta destruição do planeta, como se vê no Sahel, a faixa na África Subsaariana situada entre o deserto do Saara, ao norte, e a savana do Sudão, ao sul; e entre o oceano Atlântico, a oeste, e o Mar Vermelho, a leste. Quem consegue sentar à volta da mesma mesa os países indispensáveis para resolver um conflito? As forças em confronto na Síria e no Iraque, por exemplo, não podiam continuar sem o apoio dos Estados Unidos, da Rússia, do Irão, da Arábia Saudita, da Turquia. Só que esses países não se põem de acordo, apesar de estarem todos a perder, de aquilo representar uma ameaça para todos. O homem chama-se António Guterres, até ao mês passado Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, agora na corrida para secretário-geral. E estava no auditório do Museu de Serralves, numa sessão do ciclo de conferências “Tendências Globais 2030: Os Futuros de Portugal”. “Este é o drama do nosso tempo”, dizia. “Não há capacidade de liderança. Não há capacidade de liderança para juntar aqueles que são essenciais para resolver um conflito. Por isso, novos conflitos proliferam e velhos conflitos continuam sem solução. Por isso, não só o número de refugiados aumenta como diminui o número daqueles para quem é possível encontrar solução.” Não acredita que os líderes de hoje sejam piores que os líderes de ontem ou de anteontem. É que o mundo de hoje não é o mundo de ontem, nem o de anteontem. O mundo já não é bipolar, como nos tempos da guerra fria, nem unipolar, como nos tempos da hegemonia dos Estados Unidos, mas ainda não é multipolar. “É qualquer coisa entre o policêntrico e o caótico, mas está mais perto do caótico. A verdade é que este é um mundo em que não há respeito. Ninguém tem medo das consequências dos próprios actos. Em qualquer parte do mundo se decide começar um conflito e aparentemente não há capacidade de travar.”

Ana Cristina Pereira Jornalista do Público