Ao longo de 2015 tive oportunidade de participar em várias conferências em algumas escolas da Madeira e fiquei preocupado com o feedback que recolhi ao nível do empreendedorismo jovem. Lembro-me que numa dessas escolas e com uma plateia de cerca de 120 alunos apenas uma, a Patrícia, levantou o braço quando perguntei “Quem aqui já pensou em criar a sua própria empresa?”. Olhei para os restantes e rematei “bem, então aqui a Patrícia vai ter que criar uma ou várias empresas para que todos vocês possam ter um emprego certo?”. Olharam uns para os outros e sorriram… Mesmo descontando alguns envergonhados a percentagem é preocupante. Lembro-me que as principais conclusões dum estudo que a AJEM conduziu há uns anos atrás apontavam como principal inibidor do processo de empreendedorismo, para além da velha questão do capital, a pressão social e a tolerância, neste caso a falta dela. Hoje acredito que essa tolerância é maior pelo que lembrei-me, depois, que numa outra dimensão do empreendedorismo, a educação, para além de existirem poucas escolas verdadeiramente empenhadas no fomento do empreendedorismo, ao nível das famílias essa percentagem ainda é inferior. Se excluirmos as famílias que detêm negócios/empresas e que ambicionam que um ou mais dos seus filhos dêem continuidade ao seu legado, entre as restantes muito poucas fomentam o espírito de iniciativa, a criatividade e, muito menos, a assunção de riscos. Os nossos pais quiseram sempre que estudássemos, tivéssemos boas notas e que, de uma maneira geral, fossemos todos doutores e engenheiros e, claro, arranjássemos bons empregos. Estariam errados? Não, claro que não. Apenas quiseram o melhor para nós. Acontece que o futuro já não é o que era e hoje em dia já não sabemos o que é melhor ou pior, o que é certo ou errado nem nada é garantido. Faço votos para que os pais de hoje, e os de amanhã, reconheçam que os tempos são outros, que não existem verdades universais nem fórmulas de sucesso e que passem a explorar muito mais aquilo que tornam os seus filhos únicos, incentivando e apoiando sempre as suas opções e escolha contribuindo, assim, decisivamente para a criação da sua própria marca privilegiando a diferença em detrimento da conformidade.

Nuno Agostinho Presidente da AJEM