Tristeza não é depressão, instabilidade não é bipolaridade, crianças inquietas não são hiperativas e adolescente tímido não é Asperger. O olhar sobre a saúde mental evoluiu muito nas últimas décadas e possibilitou que as pessoas com doença ou perturbação mental sentissem que o seu sofrimento tinha entendimento e tratamento, passando a ser reconhecidas como doentes e não como estranhos inconvenientes. Contudo ainda existe uma neblina quer na aceitação da doença quer na definição dos limites entre o normal e o patológico. Se a doença mental ainda assusta e tende a esconder-se ou a ser escondida, pelo próprio ou pela sua família, pelo medo do estigma e da avaliação, o uso da linguagem técnica especifica do diagnóstico das doenças mentais, passou a ser assumido, pelas pessoas no geral, como a forma mais banal de definir estados emocionais. Hoje quase ninguém diz que está triste, muito triste ou profundamente triste, o que é natural que aconteça ao longo do ciclo de vida. Atualmente estar triste é estar deprimido, que significa o mesmo que estar doente. Este hábito, que pode ter uma leitura banal e insignificante, transforma em absoluto a capacidade de olhar a vida num colorido variável, onde o preto é uma cor real. O normal passa a ter uma leitura de emoção estável e continuada que, face a qualquer desvio, procura encaixar-se num qualquer espaço psicopatológico que pressupõe “coisa má”. Estar triste passou a ser uma “coisa má” que se deve evitar e anular rapidamente. De forma similar à tristeza, podemos também reconhecer a tendência em muitos outros exemplos, que invertem o estado natural do crescimento e do desenvolvimento do ciclo de vida. Aceitarmos a natural variabilidade das emoções é sermos capazes de encontrar em nós as respostas naturais para lidar com os “eventos de vida”. Aceitar em nós é aceitar no outro e ajudarmos os mais jovens a crescer na autenticidade do mundo real, seja ele interno ou externo. O pior que podemos fazer na educação é passar a ideia de que a vida é uma linha contínua de conhecimento e emoções, cujo desvio é doença ou incapacidade. Uma linha contínua é uma linha de morte, a vida é um gráfico em movimento. As famílias mais felizes são aquelas que são capazes de viver em sintonia com a sua realidade não querendo alinhar a toda a hora e contexto o que é naturalmente desalinhado. A escola tem também que rever muitos dos seus atuais conceitos sobre as práticas pedagógicas. Não é aceitável mantermos no séc XXI uma escola em traço continuo, aguardando crianças e jovens com comportamentos estáveis e idênticos e competências intelectuais e emocionais niveladas. A escola tem que ser aberta à realidade atual, aos ciclos de mudança e evolução. A doença e a perturbação mental existem e têm tratamento especifico e diferenciado. A variabilidade das emoções e a sua expressão resultam de circunstâncias e experiências de vida e fazem parte do crescimento. Confundir conceitos resulta, neste caso, em patologizar a vida, o que não é bom, nem saudável.

Manuela Parente Psicóloga