Havia uns amarelos, que valiam pouco e uns pretos, umas raridades que davam estatuto e entrada livre e que toda a gente sonhava ter. O 'cartão das Vespas' marcou gerações de madeirenses, mesmo sendo uma futilidade e uma medida sem qualquer sentido ou sequer legalidade. Mas que pegou e sobreviveu. Como ainda hoje acontece em todo o mundo, as pessoas pedem, imploram, para entrar em discotecas onde vão gastar o seu dinheiro e ser exploradas. E os empresários, mesmo que com um simples alvará de 'porta aberta' que os obriga a admitir toda a gente sob pena de queixa grave, continuam a impor a sua exclusividade. Impunes perante quem deveria fazer cumprir a lei.

É mais ou menos o que fez a Porto Santo Line com aquela coisa do cartão de residente no Porto Santo. Uma empresa privada acha-se no direito de recusar o Cartão de Cidadão, o documento máximo de identificação do país. Pior, leva essa ideia à prática e cria uma coisa que obriga uma junta de freguesia a dizer se alguém residiu mais de 180 dias num local. Só isto já era motivo de uma acção enérgica das autoridades.

A razão, parece, era evitar que as pessoas que têm moradia fiscal no Porto Santo, mas vivem na Madeira, beneficiem de um desconto. Pessoas que pagam os impostos no Porto Santo, fazem mais viagens do que os outros madeirenses e ajudam a movimentar a economia da ilha.

Agora, depois de toda a gente se manifestar contra a medida, parece que o governo pediu uma reunião com a empresa para tentar resolver o problema. Mas fê-lo quase a implorar compreensão, quando deveria ter dado um murro na mesa, com a legitimidade de poder eleito e representante do povo. Afinal, têm medo de quem?

A empresa pode dizer que não tem de fazer preços especiais para porto-santenses. Pode, mas também pode ser obrigada a fazê-lo com uma simples medida do governo. Pode dizer que a linha não compensa na época baixa. Pode, mas se é assim porque é que continuam? São beneméritos desta terra?

O que resulta deste episódio triste é um cenário igual ao da discoteca: quem governa, eleito por quem paga os impostos e viaja, a implorar um cartãozinho preto. Afinal, quem é que manda nesta terra?