Os portugueses estão desiludidos, desmotivados e esperam muito pouco das eleições legislativas e dos políticos que agora procuram assegurar os seus lugares num sistema partidário viciado. O país que vê partir ativos humanos qualificados nos quais investiu, o país que continua a apresentar uma assustadora, injusta e desequilibrada sobrecarga fiscal que sufoca uma economia sem estímulos, sem dinâmica e sem oportunidades e que não dá ao cidadão qualquer contrapartida ou benefício imediato, vive um ambiente eleitoral vazio, desinteressante, de ruído moderado e de grande descrença. A angústia e a desilusão fazem despertar os mais perigosos instintos de mudança imediata. É neste quadro eleitoral que não podemos deixar que esses impulsos imediatos de mudança se sobreponham ao registo de uma história recente que o país guarda na memória e que o arruinou com desprezo e irresponsabilidade. O país não pode esquecer o caminho que o levou ao colapso e os seus principais protagonistas. Os protagonistas da ruina e da desgraça.

Apresentar uma alternativa de governação liderada pelo antigo Ministro de Estado e da Administração Interna do XVII Governo Constitucional que tinha José Sócrates como Primeiro Ministro; uma solução de governação liderada pelo antigo Ministro da Justiça do XIV Governo Constitucional que tinha António Guterres como Primeiro Ministro e José Sócrates como Ministro do Equipamento Social, do Ambiente e do Ordenamento do Território; apresentar uma alternativa de governação liderada pelo antigo Ministro dos Assuntos Parlamentares do XIII Governo Constitucional que tinha António Guterres como Primeiro Ministro e José Sócrates como Ministro Adjunto, é muito pouco e não é nada de novo. Não é nada que o país já não conheça.

A história não está assim tão distante que exija qualquer particular esforço de memória e os seus protagonistas também não fizeram por apagar essa triste memória.

Depois das manobras internas de liderança e logo que a alcançaram, procuraram imediatamente devolver o espaço e o protagonismo político a José Sócrates, preparando um caminho que o colocasse em Belém, numa intenção que só foi interrompida pela Justiça que algumas das suas maiores figuras sempre desprezaram.

Mesmo recentemente não conseguiram disfarçar a forma como sempre fizeram política e apresentaram a Grécia como exemplo, afirmando que as eleições naquele país davam força a Portugal para seguir a mesma linha. Como se a Grécia fosse exemplo para alguém minimamente responsável, esclarecido e consciente. Não é evidentemente isso que queremos para o nosso país.

A alternativa a uma governação de grandes sacrifícios é agora apresentada por aqueles que foram, e tentaram recuperar, os protagonistas da ruína, da desgraça e do colapso financeiro que levou o país à bancarrota e a uma intervenção externa que eles próprios tornaram absolutamente inevitável e que acabou por marcar e por condicionar a governação nos últimos anos.

Naturalmente que a última governação terá de fazer uma reflexão profunda, terá de inverter o rumo das coisas por forma a que o país reaja e respire. O que se passou no país nestes últimos anos é demasiado mau. Porém a soberania popular que deu dois mandatos de governação a José Sócrates não pode agora interromper o percurso de uma governação que recebeu uma herança demasiado pesada e a quem a história, pelo menos a história, dá o direito de ser avaliada apenas no final de um segundo mandato. De quem se espera que, depois de um mandato que impôs grandes sacrifícios, passe a seguir uma caminho de estabilidade, crescimento e confiança, que recupere a economia enquanto introduz novos critérios de justiça numa política fiscal que é, ainda, muito desadequada e que teima em resistir ao corte da despesa, seguindo, quase invariavelmente, o caminho do aumento da receita.

Trata-se, acima de tudo, de evitar que o país siga um caminho de alternância governativa constante que volte a colocar o poder nas mãos daqueles que foram os principais protagonistas da ruina e da desgraça.

Brício Martins de Araújo