Por mero acaso (há-os que não são por mero?), cruzei-me há dias com esta palavra. Que digo, tropecei nela, porque, sim, há palavras com as quais não cruzamos, tropeçamos.
Porque são compridas, porque são grandiloquentes, porque têm um quê de diferente e exótico, porque um simples cruzar não é suficiente para um encontro mais profundo, porque… poderia ficar por aqui a tentar encontrar motivos para justificar um tropeção, mas não, adiante!
Após rasteirar-me, ficou por ali a pairar no limbo dos axónios, sem saber bem para que neurónio devia ir, deixando-os para outras congeminações, diafanamente flutuando como hipopótamo saltitando graciosamente de nenúfar em nenúfar (“Fantasia” de Walt Disney) passando de uma margem para a outra do lago da imaginação, que é o lago onde ficam gravadas as memórias e impressões do quotidiano que por vezes queremos esquecer ou tornar a lembrar dependendo das circunstâncias com que os tropeções e cruzamentos se nos vão apresentando (um axónio é, nem mais nem menos do que um prolongamento do corpo celular e que transmite os impulsos nervosos; o comprimento do axónio varia muito entre os diferentes tipos de neurónios, e contêm sinapses, estruturas especializadas onde são libertadas substâncias químicas, neurotransmissores, que estabelecem a comunicação com as dendrites ou corpo celular de outros neurónios, e que permitem que o impulso nervoso seja conduzido de um neurónio para o seguinte.
Quando o impulso nervoso chega à terminação do axónio que forma uma sinapse libertam-se neurotransmissores a partir da membrana pré-sináptica que atravessam a fenda sináptica e se ligam aos receptores da membrana pós-sináptica do neurónio seguinte) pois!, é complicado, mas o limbo axonial é mesmo assim, como também é assim o lago da imaginação que onduleia sempre que uma ideia tomba na superfície, agitando circularmente as suas águas, fazendo com que a ondulação criada a traga para as margens onde os neurónios estão prontinhos para pescá-la. É este o efeito de um tropeção numa palavra; um simples cruzar não é causador deste efeito.
Obsolescência é então a condição que ocorre a um produto ou serviço que deixa de ser útil, mesmo estando em perfeito estado de funcionamento, devido ao surgimento de um produto tecnologicamente mais avançado, podendo dizer-se o mesmo acerca das ideias ou das pessoas que, por um motivo ou outro deixam de ter a utilidade para o que tinha sido previamente programado.
Existe até uma coisa chamada obsolescência programada em que o produtor programa propositadamente desenvolver, fabricar e distribuir um produto, para consumo, de forma que se torne obsoleto ou não-funcional especificamente para uma determinada data ou tempo de funcionamento para forçar o consumidor a comprar de novo ou aceitar uma nova pessoa ou ideia. Já vimos isto sem necessitar ir ao lago da imaginação.
Existe também a obsolescência perceptiva, que é uma forma de reduzir a vida útil dos produtos que ainda são perfeitamente funcionais e úteis. Os fabricantes lançam produtos com aparência inovadora e mais agradável, além de pequenas mudanças funcionais, dando aos produtos antigos aspecto de ultrapassados. Dessa forma, induzem o consumidor à troca. Um bom exemplo é a moda, que se modifica de forma a estimular a frequente aquisição de novos modelos de vestuários. Baralha e volta a dar para que fique tudo na mesma, diz a sabedoria popular.
Pois!, é complicado, mas faz lembrar um pouco (muito?) alguma acção política na qual se faz crer que haverá novidades, frescas e boas, mas acabamos com a sensação de uma novela bem feita, honesta e caprichada, mas sem originalidade, parecendo já ter sido lida antes, e cujas páginas o leitor vai virando com indiferença, sabendo que nunca lhe causarão surpresa ou emoção.
Senão vejamos: O Sr. Tsipras defende com as mesmas unhas e os mesmos dentes uma austeridade que os Srs. Coelho e Portas defenderam depois de a epitetarem de inaceitável, mas que o Sr. Costa desdenha, se bem que já a tenha defendido quando proposta pelo Sr. Sousa.
Tornam-se obcelescentes entre si com o mesmo sorriso de quem não quer nada.
E vamos nós a votos daqui por uns dias. Imensas propostas obsolescentemente programadas e perceptivadas foram e serão feitas tendo-nos como receptores, quais neurónios à pesca de uma qualquer coisa nova vinda de outros neurónios, deixando no limbo uma eventual passagem pelo lago da nossa imaginação, fazendo crer que a pesca será profícua, mas que não será mais do que um acto que rapidamente (dizem que no dia seguinte) tornará obsoletas as promessas que a obsolescência programada ditou.
Compete-nos não aceitar a obsolescência das promessas feitas antes de votos mas aceitá-las como actuais e efectivas. Se assim não deixarem, devemos rumar mais uma vez e sempre ao lago da imaginação, agitar as suas águas, e fazer com que os axónios transmitam a neurónios obsolescentes uma realidade que não se obsolesça com a rapidez com que muitas vezes a política e os políticos desejam que aconteça, porque para eles, obsoletos somos nós, tanto os que votam como os que não votam. Mas há um acto que, se não quisermos, nunca se tornará obsolescente: o voto. Vamos votar!
Pedro Melvill de Araújo