Hoje falo do tempo. Não do tempo frio e escuro dos últimos dias, nem da chuva que cai a Norte e muito menos das previsões para o Carnaval. Hoje falo do tempo perdido. E, como quase sempre neste espaço, do tempo perdido em política. Que continua a ser muito. Sobretudo pelos principais partidos da oposição regional que actuam como quem está à espera do tempo certo para dizer ao que vem, o que quer e o que oferece. E ninguém lhes diz que o tempo corre contra eles. Que perderam tempo demais com 'rodriguinhos' e pequenos jogos de cintura. Que o tiro de partida aos partidos para estas eleições foi dado há pelo menos dois anos. Que o adversário que dizem querer combater já corre folgadamente isolado na frente. Está mesmo quase a chegar à meta enquanto os primeiros atletas da oposição ainda nem calçaram as sapatilhas. Ninguém lhes diz que a estratégia está mal montada, que já não é assim que se faz, que os eleitores de hoje são mais esclarecidos do que aqueles que votavam nos anos 90, que são mais intolerantes às brigas de capela e poleiro. Ninguém lhes diz que a mudança não se faz apenas com a palavra, que o sucesso das autárquicas não passa a papel químico para as legislativas. Ninguém lhes diz que a mobilização não se faz apenas com jantares e chavões com mais de uma década. Sinceramente desconfio que ninguém lhes diz nada. E pior: eles próprios dizem pouco a muitos. E assim, revestidos de um estranho ímpeto ganhador, daquele que se compra feito e que os treinadores usam para dar moral aos jogadores perante equipas mais fortes, alguns dos principais responsáveis da oposição distribuem sorrisos e apertos de mão à espera de votos. Não sabem ainda bem o que fazer em questões concretas, ignoram que modelo vão seguir ao certo, desvalorizam o poder do poder. O que aqui se discute não é tanto a estratégia tardia, a ausência de surpresa ou a aparente desmotivação. É muito mais do que isso. É o sentimento de que assim, mais do que os partidos e as suas máquinas e lideranças e dirigentes, assim perde a democracia, a alternância, a capacidade de mudar sem ser sob a orientação dos mesmos. Assim, perdem os madeirenses. E isso não é coisa pouca. Dir-me-ão: então e as primeiras decisões da nova liderança do PSD-M, são todas acertadas? E aquele encontro em Lisboa que não deu nada? E a vergonha que foi a defesa da nova lei fiscal atirada para o fundo de uma gaveta? E a lista de candidatos a governantes e deputados? E a continuidade do poder da família Ramos na Fundação e no partido? Também partilho dessas observações e entendo que várias surpreendem pela negativa. Mas não posso ignorar a vassourada no Parlamento e na Rua dos Netos. Nem o modelo de governo que aí vem. Podem os eleitores esclarecidos até nem apreciar, mas sabem que existe um modelo. E que há uma equipa para o governo. Sei também que apesar do que vem sendo apontado como falhas iniciais da nova liderança do PSD, a verdade é que elas passam como água na ribeira perante discursos oposicionistas que dispensam o essencial e se deliciam com o acessório. Que não aproveitam o concreto e atiram toda a artilharia contra vazio. Finalmente, sei que não é simpático assumir o que acabo de escrever, sobretudo num momento em que quem tem acesso às lideranças não o faz para não correr o risco de contrariar quem manda, de colocar em perigo a união e ameaçar a estratégia. O lugar, ao fim e ao cabo. Mas alguém tem de o fazer. Está feito!