Anísio Salazar Franco e Maria João Vilhena de Carvalho, conservadores do Museu Nacional de Arte Antiga, deslocaram-se recentemente à Madeira num encontro de trabalho que incluía uma prolongada visita à exposição: Madeira, do Atlântico aos confins da Terra, no Museu de Arte Sacra, que comemorou os 500 anos da Diocese do Funchal. A exposição ficou patente até 6 de janeiro de 2015, adiada que foi a data do seu encerramento. Na mostra foi constatada a excecional qualidade das obras de arte em presença, causando verdadeiro interesse a especial representação da escultura, onde se selecionou o que de melhor têm as coleções da diocese do Funchal, de oficinas flamengas e portuguesas entre os séculos XV e XVIII. Após a exposição seguiu-se uma visita às coleções do Museu, que para Maria João Vilhena de Carvalho, era uma novidade total. A conservadora ficou absolutamente maravilhada com a homogeneidade da coleção e com a qualidade de muitas das obras de arte em presença. O Museu, conhecido sobretudo entre especialistas, como uma coleção de referência da pintura flamenga do início do século XVI, possui ainda coleções de escultura flamenga e de arte portuguesa dos séculos XVI ao XVIII de grande importância. Durante a visita, foi dada grande atenção às salas dedicadas à escultura dos séculos XVII e XVIII. Na sala dedicada à escultura do século XVIII foi particularmente notada a presença de obras de primeira escolha das oficinas lisboetas próximas às encomendas da corte ao longo de todo o século XVIII. Os olhares dirigiram-se a um São Paulo, proveniente da Igreja do Carmo do Funchal, em madeira estofada, ricamente dourada e policromada logo ali atribuído ao círculo de Joaquim Machado de Castro, ou a escultor do seu Laboratório. Atenhamo-nos na peça. Trata-se de uma pequena escultura destinada a oratório privado, representando o santo em corpo inteiro vestindo túnica cintada e manto posto sobre o ombro esquerdo, apanhado pela mão esquerda que segura também volume sagrado. Deveria suster com a mão direita uma espada, seu atributo principal. Apresenta santo com face serena, de longas barbas brancas e grandes entradas no cabelo, revelando uma especial qualidade de entalhe escultórico, quer pelo rigor da anatomia, quer pelo gesto tardo barroco e agitação formal que percorre toda a escultura. Como elementos de efeito cénico e de dispersão visual, típicos da época e presentes na obra de Machado de Castro, refira-se o manto que cai com uma das suas pontas para além da base da peanha onde o santo é apresentado, assim como o ultrapassar do pé direito da beira exterior da mesma. O santo calça sandálias abertas, comuns a outras esculturas conhecidas, assim como deixa ver no entalhe dos pés, afinidades interessantes com outros modelos, por exemplo de esculturas de presépios coevos. Joaquim Machado de Castro (1731-1822) é o mais conhecido escultor português do século XVIII, autor da estátua equestre de D. José I para o Terreiro do Paço em Lisboa. Formado na grande escola do Palácio Nacional de Mafra, foi mentor da primeira aula de escultura, autor de vasta produção teórica, estratega da elevação social da condição de escultor, autor de numerosíssima obra e projetos, como e para além da já citada estátua equestre, a Fonte de Neptuno hoje no Largo da Estefânia em Lisboa, os bustos da cascata dos poetas na Quinta do Marquês de Pombal em Oeiras, as esculturas para a Quinta Real de Caxias, as de Belém, obras para a Basílica da Estrela, Palácio da Ajuda, imagens devocionais para o Convento de Arroios, Almeirim, Beja, etc, etc. No caso da escultura devocional e dos presépios é conhecida a grande participação do seu laboratório, isto é de numerosos colaboradores, assim como trabalhos de subcontratação a santeiros, como os existentes na calçada de Santo André, em Lisboa. Assim a atribuição a Machado de Castro e ao seu Laboratório, é sobretudo a constatação da excelência de muitos mestres ativos ao longo do século XVIII, na arte portuguesa ainda muito mal conhecidos. As coleções artísticas da Madeira são um poço de surpresas, constatado o rigor e pertinácia de muitas das encomendas feitas sobretudo em Lisboa, nos círculos da corte e da estrita qualidade artística. Devidamente enquadrado, estudado, inventariado e divulgado o património artístico da Madeira é um dos mais importantes a nível nacional e pode constituir um importante ativo na diversificação da oferta cultural e turística.

Francisco Clode Sousa