Fala-se muito de fundamentalismos, radicalismos e excessos. Normalmente, estamo-nos a referir a questões de fé e a atos violentos que todos condenamos veementemente. Contudo, será que temos consciência que, muitas vezes, os comportamentos “radicais” podem ter múltiplas formas e contornos (aparentemente nada violentos), estando presentes no nosso quotidiano, “camuflados” atrás de um “novo riquísmo intelectual” que nos quer impingir certezas de um “conhecimento cientificamente provado”, esquecendo-se que em ciência não há certezas. A título de exemplo, se por um lado hoje parece evidente que nos devemos preocupar com o tipo de alimentação e com o ter uma vida ativa, … por outro lado devemos equacionar se uma “atitude fundamentalista” em relação à dita alimentação saudável e ao exercício físico não poderá ser contraproducente. É que, normalmente, essas obsessões não se confinam à própria pessoa (o que já de si pode ser perigoso), existindo a tentação de, também de forma obsessiva, querer levar os outros a ter o mesmo tipo de comportamento. Assumindo-se mesmo o papel de uma espécie de “polícia alimentar e do exercício” que pune (nem que seja psicologicamente) quem opte por não cumprir à risca os denominados parâmetros de um “estilo de vida saudável”. Ora, o fundamental é saber gerir equilíbrios. Uma pessoa é muito mais do que os valores do índice de massa corporal, do nível de colesterol e triglicéridos, da tensão arterial … Certamente que são indicadores importantes e devem ser tidos em conta, mas será que temos de nos privar, por vezes, de comer um gelado, um cozido à portuguesa, uns hambúrgueres e pizzas, só porque dizem que fazem mal? Será que os potenciais “malefícios” não serão bem piores se não comermos e nos penalizarmos por não ter comido, por não termos ido à festa x ou y,…? Será que o prazer de comer pontualmente esses tipos de alimentos não ajudará a melhorar outros parâmetros fundamentais como o nosso “índice de felicidade”? O mesmo se passa em relação ao exercício físico e à prática desportiva. Com a posologia adequada às motivações, necessidades e potencialidades de cada um, pode ser um poderoso aliado da qualidade de vida. Porém, em excesso ou sacrificando de forma compulsiva outras vertentes da vida, pode prejudicar a “própria saúde”, entendida pela Organização Mundial de Saúde, há mais de 60 anos, como o completo bem-estar físico, mental e social e não apenas ausência de doenças. É assim necessário que cada um consiga encontrar e desenvolver os seus equilíbrios, devendo para tal, por exemplo, saber montar estratégias para os alcançar, tomar decisões adequadas a cada situação, ter capacidade de adaptação perante os problemas que a vida lhe coloca. Uma pergunta que se impõe é se a educação que temos, através da escola, da universidade, do clube, da família, da comunicação social, da net… nos ajuda a encontrar e desenvolver equilíbrios ou, se pelo contrário, nos “empurra” para a intolerância, para irmos na onda, para seguirmos quem melhor sabe “dourar a pílula” independentemente do conteúdo…?

Hélder Lopes Professor da UMa