As pessoas, condicionadas no tempo e no espaço, não vivem felizes e realizadas A baía, toda ela luzes e serpentinas, feita de encantos mil e flashes das máquinas fotográficas. O barman internacional cria a nova carta de bar, com cocktail e gins únicos. A crónica não se faz diletantismo ou jogo de palavras. É antes um corte, um permanente sangrar na alma do narrador. Diante da premissa do glamour, do charme indiscreto do novo-riquismo, o que explica (ou como explica) a causa das coisas? Escrevemos não só por precisão e por carência existenciais, mas fundamentalmente para provar que a existência por si mesma não é capaz de se justificar. A veia, palpitante, requer emoção. As manequins, aqui e ali, figurantes de todas as cores e na linha do fashion, não conseguem ser musas para o Poeta melancólico. Valha-lhe a pulsão da libido. Ou talvez nem isso. Em decrescente, festejamos. Despedimo-nos do ano de 2015, com a estranha sensação de que o mundo, mau grado as palavras sábias do Papa Francisco, não está melhor. De um lado, as crises humanitárias, decorrentes todas (inclusive aquelas das mudanças climáticas) de perniciosas ações humanas; doutro lado, os modelos de civilização, com deriva incivilizada, que se impõem às nossas formas de ser e de estar na vida. As pessoas, condicionadas no tempo e no espaço, não vivem felizes e realizadas. Como se todos estivéssemos sob a imposição d’ O Processo, de Franz Kafka, e, por incompreensão da gramática que fluiria a integralidade, a impressão de uma grande (e claramente instituída) insanidade. O terraço cousy, o rooftp, aquilo tudo trendy faz-nos voar sobre o ninho de cucos. A contagem decrescente para um brinde a 2016. Entrementes, toca-se o Hino e um palhaço, enfarpelado com três peças, aparece na televisão a dirigir-se aos concidadãos. Aquilo que Maquiavel, sempre tão sutil, visto por Michel Maffesoli (em O Tempo das Tribos), chamou de ‘pensamento da praça pública’. Mas não nos impressionemos com o Mestre de Cerimónias e com o ‘pensamento da praça pública’. Eles são poderes perversos e vestem as camisas-de-força do engodo. Enquanto compomos a mesa para celebrar 2016 (com o troar das champanhes, o tremeluzir das iluminações e o ribombar do fogo de artifício), um esplendoroso paquete faz aproximação à baía e o Poeta, triste e sisudo (rímel e verniz, qual Pierrot, Colombina e Arlequim), na profana abstração da realidade, pensa nos demais náufragos. Os de aquém e de além mar, das ilhas e dos continentes, da intergaláxica roda dos humanos. O elegíaco e o filósofo, cioso de qualquer momento ser histórico, são as interrogações primordiais. Tormentosas interrogações, diga-se de passagem. Uma angústia imensa dos sentidos diante das regrinhas pernósticas de Boas Festas e da Commedia dell’Arte. Abraçar 2016, com os seus atropelos, será maior de todos os apelos. Um paradoxo, com o próprio glamour, aliás. Como se nós, no ensaio de tal baile de máscaras, uns mais templários que outros, não fôssemos também vencidos da vida... Filinto Elísio
As pessoas, condicionadas no tempo e no espaço, não vivem felizes e realizadas
A baía, toda ela luzes e serpentinas, feita de encantos mil e flashes das máquinas fotográficas. O barman internacional cria a nova carta de bar, com cocktail e gins únicos. A crónica não se faz diletantismo ou jogo de palavras. É antes um corte, um permanente sangrar na alma do narrador. Diante da premissa do glamour, do charme indiscreto do novo-riquismo, o que explica (ou como explica) a causa das coisas? Escrevemos não só por precisão e por carência existenciais, mas fundamentalmente para provar que a existência por si mesma não é capaz de se justificar. A veia, palpitante, requer emoção. As manequins, aqui e ali, figurantes de todas as cores e na linha do fashion, não conseguem ser musas para o Poeta melancólico. Valha-lhe a pulsão da libido. Ou talvez nem isso. Em decrescente, festejamos. Despedimo-nos do ano de 2015, com a estranha sensação de que o mundo, mau grado as palavras sábias do Papa Francisco, não está melhor. De um lado, as crises humanitárias, decorrentes todas (inclusive aquelas das mudanças climáticas) de perniciosas ações humanas; doutro lado, os modelos de civilização, com deriva incivilizada, que se impõem às nossas formas de ser e de estar na vida. As pessoas, condicionadas no tempo e no espaço, não vivem felizes e realizadas. Como se todos estivéssemos sob a imposição d’ O Processo, de Franz Kafka, e, por incompreensão da gramática que fluiria a integralidade, a impressão de uma grande (e claramente instituída) insanidade. O terraço cousy, o rooftp, aquilo tudo trendy faz-nos voar sobre o ninho de cucos. A contagem decrescente para um brinde a 2016. Entrementes, toca-se o Hino e um palhaço, enfarpelado com três peças, aparece na televisão a dirigir-se aos concidadãos. Aquilo que Maquiavel, sempre tão sutil, visto por Michel Maffesoli (em O Tempo das Tribos), chamou de ‘pensamento da praça pública’. Mas não nos impressionemos com o Mestre de Cerimónias e com o ‘pensamento da praça pública’. Eles são poderes perversos e vestem as camisas-de-força do engodo. Enquanto compomos a mesa para celebrar 2016 (com o troar das champanhes, o tremeluzir das iluminações e o ribombar do fogo de artifício), um esplendoroso paquete faz aproximação à baía e o Poeta, triste e sisudo (rímel e verniz, qual Pierrot, Colombina e Arlequim), na profana abstração da realidade, pensa nos demais náufragos. Os de aquém e de além mar, das ilhas e dos continentes, da intergaláxica roda dos humanos. O elegíaco e o filósofo, cioso de qualquer momento ser histórico, são as interrogações primordiais. Tormentosas interrogações, diga-se de passagem. Uma angústia imensa dos sentidos diante das regrinhas pernósticas de Boas Festas e da Commedia dell’Arte. Abraçar 2016, com os seus atropelos, será maior de todos os apelos. Um paradoxo, com o próprio glamour, aliás. Como se nós, no ensaio de tal baile de máscaras, uns mais templários que outros, não fôssemos também vencidos da vida...
Filinto Elísio