O Natal é uma provocação. Aliás, ainda não é convenientemente mas devia ser, para lá caminhamos. Não creio que vá continuar para sempre a ser um tempo de luzes, presépios, árvores de Natal, missas do parto com muita azáfama comestiva e bebível, mas com pouca fé, as massacrantes músicas tipo Jingle Bells, o exagero ridículo da magia de pais e mães Natal, etecetera e tal… O Natal devia ser assumido como uma provocação que ajudasse a transformar a vida e o mundo.

O Natal é um momento que toda a gente gosta. Mas ficamos nisso apenas no gosto que os adereços fazem lembrar. Basta conversarmos com algumas pessoas para descobrirmos isso mesmo. «Não me lembra o Natal» ou «já lembra o Natal» e ainda «é isto que me lembra o Natal»… Frase típicas quando há ou não o folclore relacionado com esta quadra. A pressão é tanta que ninguém se livra desta magia intoxicante entre nós.

Por isso, gostaria de fazer a partir daqui uma sugestão de alguns pensamentos que nos fizessem purificar o Natal e com eles encetarmos pelo ano fora ações que demonstrem o quanto o Natal foi provocador para nós.

Deve ter sido neste sentido que o Papa Francisco há um mês alertou para o seguinte sobre o Natal: «Jesus chora também hoje porque nós preferimos o caminho da guerra, do ódio, da inimizade. Estamos perto do Natal: haverá luzes, festas, árvores iluminadas, presépios, mas é tudo falso: o mundo continua em guerra, a fazer as guerras, não compreendeu o caminho da paz... O que fica de uma guerra, desta como a que estamos agora a viver? Ruínas, milhares de crianças sem educação, tantos mortos inocentes, tantos, e muito dinheiro nos bolsos dos traficantes de armas». Na mouche.

De facto, se o Natal não muda o mundo, não converte a humanidade e não faz surgirem atitudes que ponham fim à guerra, tudo não passa disso mesmo: luzes, presépios, árvores, flores, música, bebidas e comida... Nós os católicos temos uma responsabilidade maior sobre como podemos fazer passar uma mensagem mais autêntica sobre os valores que o Natal implica. Façamos do Natal uma verdadeira memória de um acontecimento revolucionário sobre a vida e sobre as estruturas sociais, que hoje continuam a gerar dominados e dominadores. Deste modo, o Natal converte-nos para a militância na construção da misericórdia que busca a justiça e o respeito pela natureza, pelos outros e pelo bem destinado a todos os seres humanos.

O dia 19 deste mês foi o Dia Internacional das Migrações, ou Dia Internacional do Migrante. O Migrante, que é a pessoa que: - é forçada a deixar o seu país ou que o faz voluntariamente; - procura uma vida melhor ou uma vida diferente; - possui autorização de residência num determinado país; - vive na clandestinidade...

O país e o povo que não tem disto que atire a primeira pedra contra os milhares ou milhões de deslocados por esse mundo fora (refugiados, emigrantes, imigrantes, migrantes e todas as pessoas que se veem forçadas a ter que deixar a sua terra, a sua casa, a sua família para partir)? – E lembro tudo isto, porque a mensagem da estupidez contra esta calamidade continua tão forte e viva que nos deixa perplexos. Vindo de um povo com tantos deslocados como o nosso é inconcebível e imperdoável se atendermos ao quanto prezamos o ser católico e o ser cristão. A família de Belém também teve logo no início de se deslocar da sua terra para fugir à fúria malévola do sanguinário Herodes. Quanto nos fica mal assumirmos o papel de Herodes dos tempos de hoje...

Dado que o Natal nos enche os olhos com toda esta magia incontornável, procuremos fazer deste tempo dias excepcionais para descobrir a verdade que se escondia nas palavras de um santo muito querido, Alberto Hurtado, quando afirmava: «O pobre é Cristo». Após assumir esta enorme e provocante conclusão do Natal contou o seguinte: «Aconteceu durante uma missa. Um mendigo sentou-se ao meu lado. Ele costumava dormir na porta da igreja. Estava muito sujo. Então eu pensei: “Puxa, bem que ele poderia se sentar noutro banco”. Mas ele não se moveu; ficou ao meu lado durante a missa inteira. Depois da comunhão, no meio da minha oração, eu disse a Jesus: “O que posso fazer por Ti, Senhor?”. Deus sabe tudo e sempre nos surpreende… Senti no mais profundo do meu ser estas palavras: – “Estou bem aí ao seu lado. O que farás por mim?”».

O mesmo desconcerto pensou o gigante Santo Agostinho quando ousou exclamar: «Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos».

José Luís Rodrigues