“Democracia não é um concerto a solo; é um coro de vozes que se fundem para criar uma sonoridade harmoniosa. De certeza, de vez em quando surge uma ou outra nota discordante, mas mesmo esses sons ajudam-nos, para nos podermos harmonizar.” O autor destas palavras não é um filósofo consagrado nem um historiador experiente. É uma pessoa com 2.18 metros de altura, considerada por muitos como o melhor jogador de basquete de sempre: Kareem Abdul-Jabbar. Escreveu estas palavras há poucas semanas atrás, num artigo em que critica aqueles que veem em atletas apenas um monte de músculos e certas capacidades físicas que os fazem ganhar muito dinheiro, mas que, por defeito, os desqualificam de terem opiniões coerentes sobre qualquer outro assunto que não seja desporto, e sobretudo, sobre a política.
As suas palavras e o contexto em que as proferiu, fizeram-me pensar em mais um paralelismo entre o desporto e as artes. Muitas vezes, os artistas também estão “solicitados” de não interferir com assuntos “reservados” para outras certas profissões, como se viver as artes na contemporaneidade não implicasse, também por defeito e sem querer, uma atitude genuinamente política, tendo em conta os condicionamentos e ramificações impostas às artes em todo o lado, por sistemas, conjunturas e várias Realpolitik(ices) em vigor. As artes e o desporto, isso sim, conforme nos mostra a história, muitas vezes foram sequestrados para servirem fins políticos, e, na maioria dos casos, assim completamente se alienarem do seu propósito original.
Mais, mesmo no mundo das artes, e agora estou a pensar especificamente na nossa Região, ser um artista e exercer a sua profissão neste meio, é questão tanto política como também de relacionamentos humanos, alguma cortesia (ou não) e necessidade de muita tolerância. E quando as associações culturais são convidadas de participarem num processo democrático e aberto com a finalidade de melhorarem condições de funcionamento para todos, quando se chega a verdadeiro dialogo com os responsáveis da área da Cultura, aí aparecem uns poucos representantes, numa percentagem propriamente pequena de dezenas e dezenas de associações culturais da Região. A falta de reacção pode ser percebida como desinteresse, o que seria de estranhar, inércia, o que não seria de estranhar, falta da fé na possibilidade de qualquer mudança, o que seria triste, ou falta de confiança num processo democrático, o que seria ainda mais triste.
E porque, nesta época natalícia, é uma altura adequada para todos abrirmos o nosso espírito e a nossa mente, resta esperar de que, eventualmente, aumente o número das vozes que participam no coro cultural da nossa terra, porque todas elas, mesmo que discordantes, desde que activas, têm a capacidade de ajudar na harmonização de uma vida cultural dinâmica e pluralista, mas saudável e coordenada. Boas Festas a todas as artes e artistas!
Robert Andres