A porta abriu-se, e na penumbra viam-se os móveis tapados com lençóis brancos e algumas teias de aranha, enquanto as narinas se retraiam face ao enorme cheiro a mofo. A cada passo dado crescia a vontade de continuar, abrir as janelas, cumprimentar o sol e desnudar tudo. Primeira etapa vencida, apetecia sentar em cada compartimento e retomar a vida, um dia a alma da casa. Como se o tempo pudesse recuar, as vozes, a frescura dos espaços, a dinâmica das rotinas reconstituia-se e trazia de volta tantas primaveras soalheiras enriquecidas pela cor das histórias vividas em família. Sentados à mesa da sala, os risos soltavam-se misturados com as vozes, sempre presentes, do avô, da avó, do pai, da mãe, e dos amigos, que connosco partilhavam os almoços deliciosos, que a senhora Prazeres confecionava, sempre com a colaboração activa da avó Maria. Era um regalo, cheirá-los ainda na cozinha fresca, enquanto ganhavam forma nos potes de ferro pousados no forno de lenha. Sentada num banco de madeira, esperava a aprovação dos adultos para abrir o primeiro e deitar numa terrina o estufado de carne com legumes. De seguida corria para a casota do Bi, e oferecia-lhe a delícia de um manjar, que eu própria provava antes. Só de me ver, o malhado cão de guarda abanava o rabo e salivava, perante a expectativa de iniciar o seu momento alto do dia. Quando voltava, já era hora de me preparar para o almoço, corria para o lavatório de louça e aguardava que a Adelaide me ajudasse a deitar a água do jarro nas mãos e esfregava-as com sabonete branco, até todo o negro, a elas agarrado, se ir soltando meticulosamente. Finda a tarefa, dirigia-me para a sala, e ainda com o cheiro do estufado para cães, aguardava que me servissem a sopa de legumes, tão fresca que quase conseguia distinguir todos os ingredientes. Na dúvida perguntava, e a avó enunciava um a um, com a minúcia de uma cozinheira exímia, a origem de todos eles e o poder da mistura. A minha preferida era a de abóbora amarela, uma delícia que se desfazia na boca e fazia antever os prazeres dos pratos seguintes. Ora surgia a carne assada com arroz de forno, ora a galinha recheada com batatinhas, não faltando os dias do coelho estufado, do bacalhau na brasa e ainda, raramente, do peixe, deliciosamente preparado pelas mulheres da casa. A água e a fruta eram igualmente deliciosas, tanto quanto o prazer de olhar pela janela grande da sala para as árvores de fruto que engrandeciam os arredores. O vinho no copo dos adultos marcava presença em jarros de vidro transparentes, vindo diariamente dos barris, que descansavam nas lojas, após a azáfama das vindimas. Depois do almoço, o silêncio era uma exigência, uns descansavam nos quartos, como o avô, e outros sentavam-se no fresco da rua, lendo e fumando cigarrilhas, como o pai. As mulheres conversavam baixinho e bordavam pequenas extensões de tecido, muitas vezes sem ainda saberem o destino. Esta era para mim a parte mais difícil, descansar, tentava sempre autorização para ir correr, deitar-me nos campos, entender os desenhos das nuvens, andar no baloiço, preso entre árvores, e aguardar a hora de receber os amigos para brincar. Finda a sesta retomavam-se os trabalhos, os caseiros voltavam e o avô juntava-se a eles, as senhoras também retomavam tarefas e a casa ficava de novo cheia de vida. Risos, cantigas, ruídos da brisa misturados com vozes, vindas de outras casas, de outras terras plenas de vida. Eram tardes coloridas e cheias de alegria que acabavam com o pôr-do-sol, como uma antecipação do fim que transportava a nostalgia e o medo de que não houvesse seguinte. Uma vida num só dia. A noite chegava com novas rotinas, banhos, jantar, as notícias na rádio, que todos tínhamos que respeitar. Chegada a hora da “boa noite”, o trajeto para o quarto era ainda um momento apetitoso, os lençóis sempre frescos e aconchegantes, a oração a Jesus e o beijo da mãe, antes do fechar da porta. O cansaço trazia os sonhos, e quando os olhos se esforçavam por abrir, a certeza de que a vida continuava ali, trazia, em cada manhã, o consolo perdido no fim de tarde do dia anterior.

Manuela Parente Psicóloga