José Manuel Cabral Fernandes I – No declínio da civilização grega (finais do Séc.V a.c.) surgiu uma escola ou movimento filosófico conhecido por “seita cínica” que advogava como caminho a seguir, para se alcançar a felicidade humana, o menosprezo por todas as instituições, costumes, tradições, princípios, regras e convenções sociais interiorizadas pelas várias comunidades e que recaiam sobre os indivíduos.

A conduta humana deveria retornar a uma nudez próxima dos animais, não cerceada por regras de conduta. Daí a designação de cínico, de “cão”(kyon). Ideia próxima à do” bom selvagem” de Rousseau.

II – Como a natureza humana não muda ao longo dos tempos, pode-se hoje em dia transpôr aquela teoria filosófica para o plano político.

Senão vejamos:

Agora aceita-se que a primeira condição para se ser primeiro ministro é perderem-se eleições???

E no caso presente da política portuguesa a derrota em eleições do P.S. até não foi “poucochinha”.

Ela significou que, após quatro anos de austeridade e de pesados sacrifícios sobre os portugueses, o P.S. não conseguiu tirar qualquer proveito disso e afirmar-se como alternativa.

A derrota do P.S. não foi uma derrota aceitável ou compreensível. Ela foi uma estrondosa derrota, evidenciando demérito significativo.

Pelo contrário, a vitória da Coligação, que uns meses antes de 4 de Outubro se perspectivava difícil após quatro anos de austeridade, é surpreendente e de indiscutível mérito.

A segunda condição para se ser primeiro-ministro é agir-se com reserva mental, ou seja, não se dizer ao eleitorado para o que se vem.

Note-se que o P.S. foi o único partido que teve como objectivo anunciado, para liderar o governo, obter maioria absoluta, ou seja, António Costa pedia a maioria absoluta para poder governar. Nem a coligação se atreveu a tanto.

Não obtendo essa maioria absoluta, como pressuposto para governar, vai daí o P.S. inverte o cenário tirando da cartola, como golpe mágico, e para surpresa geral, a versão de uma frente comum de esquerdas, (P.S., P.C.P. e B.E)., seus notórios rivais de sempre.

Lembremo-nos do que disse António Costa destes “nóveis aliados”:

“O B.E. é um partido oportunista que parasita a desgraça alheia, é incapaz de assumir as responsabilidades…”. Pelos vistos transformou-se, num ápice, em partido responsável.

“P.C.P. e B.E. são meros partidos de protesto”. Passaram estes partidos, na óptica de António Costa, a partidos do” novíssimo arco da governação”.

Nos regimes ditatoriais a batota eleitoral preparava-se, organizava-se e fazia-se durante a campanha eleitoral e no dia das eleições. Hoje o embuste eleitoral também acontece, mas depois das eleições. A diferença não é assim tão grande!

Para justificar o volte-face do P.S. construiu-se, em jeito de puritano heroísmo, a teoria do fim do gueto do P.C. e dos seus próximos.

O P.S. como que pede, arrependido, perdão pela sua luta no PREC, contra a hegemonia do P.C. e pela defesa do valor supremo da Pessoa Humana, a LIBERDADE, que o Partido Comunista, historicamente e em qualquer parte no poder, nega e viola.

É inacreditável que o P.S., ao negar no passado compromissos com o P.C. admita, hoje, que o tenha excluído ou marginalizado com culpas suas, e não reconheça que foi o próprio P.C. quem se excluiu da apelidada “democracia burguesa”, mantendo a vontade persistente de vir a criar a sua “democracia avançada”, mais rigorosamente “autoritária”.

Será que António Costa entende que Jerónimo de Sousa assemelha-se a Enrico Berlinguer ou a Santiago Carrilho, que se apartaram da ortodoxia comunista e nunca contribuíram para armadilharem a queda dos governos nos seus países, com maiorias negativas ou destrutivas?

Uma pergunta ocorre formular: Não terá sido o Partido Socialista de António Costa quem se introduziu no gueto, tornando-se, por vontade própria, refém das exigências do radicalismo da extrema-esquerda, descaracterizando o seu programa macro-económico e lançando as sementes para a sua cisão ou clivagem interna que mais cedo ou mais tarde surgirá?

Resta-nos para consolo que, no futuro, em próximas eleições, exigir-se-à, para que tais comportamentos ínvios não se repitam, que os Partidos tornem claro, em campanha, qual o seu jogo, as suas cartas, os entendimentos ou coligações que congeminam, caso não vençam eleições.

O eleitorado exige isso, pois só assim vota esclarecido e em consciência.

A sobrevivência política, único propósito que se descortina na atitude de António Costa, não justifica cambalhotas, como a dada, em divergência até com a postura e identidade histórica do Partido Socialista ao longo de décadas e com as regras, princípios e convenções a que o eleitorado estava habituado.

III – Tudo isto vem a propósito do paralelismo que encontramos com a orientação da dita “seita ciníca”.

Sobra a esperança que o Partido Socialista retome os seus padrões democráticos de actuação, regressando à sua matriz original.

Ainda restam alguns socialistas que apelam para um trilho de coerência, considerando esta aliança das esquerdas anti-natura e afastada dos tratados internacionais que o Estado Português subscreveu.

Uma interpretação correcta, imparcial, e sobretudo fiel ao Partido Socialista, foi feita por Francisco Assis. O eleitorado deu confiança a Passos Coelho para governar, embora com maioria relativa, querendo com isso significar a necessidade de um contrapeso à sua governação, cabendo a uma oposição construtiva denunciar os erros da governação e pugnar pela defesa e promoção das medidas alternativas mais ajustadas aos interesses do País.

Ser oposição construtiva não envergonha nem inferioriza. Governar ao arrepio da vontade do eleitorado é que é pouco sério.

O povo não escolheu, na hora do voto, um “governo dos derrotados”.