Cumprido um intervalo de um mês e cerca de três semanas – as eleições ocorreram a 4 de Outubro passado – o Presidente da Republica indigitou finalmente António Costa para formar Governo. Tratava-se da solução óbvia desde o dia seguinte ao acto eleitoral quando se concluiu que a direita coligada não conseguia maioria absoluta e que a esquerda unida atingia esse objectivo. A questão está em que uma tal solução não se mostrava capaz de agradar a muita gente. È que para além do argumento, entende-se que meramente formal, de que a esquerda não concorreu coligada a estas eleições apenas se tendo coligado depois de conhecido o resultado delas, avulta ainda uma desconfiança antiga em relação aos comunistas e aos seus propósitos e que não convida nem tranquiliza muitos cidadãos que atravessaram o PREC a honrá-los com o seu voto, Essa desconfiança não favoreceu o acordo entre parceiros que se tornava necessário e daí também a demora que o processo conheceu. Poderiam as coisas ter-se passado de uma forma mais lesta? É óbvio que sim e nesse domínio os gregos, que depois de todas as vicissitudes por que ultimamente têm passado constituíram um exemplo a reter, mostraram-se muito mais expeditos do que nós. Naturalmente que este processo não representa necessariamente uma corrida contra o tempo em que importa concluir quem é que o termina primeiro. Tratava-se de apresentar um Governo que desse garantias de governar mas também de um Governo que oferecesse garantias de estabilidade e que reunisse condições para resistir á erosão dos caprichos do eleitorado para além das primeiras semanas. Era isso que se mostrava importante e suscitavam-se duvidas de que um Governo encabeçado por António Costa reunisse nesta emergências as condições necessárias. Um tal quadro legitima as duvidas que se suscitaram a Cavaco Silva depois de ter dito, após as eleições de 4 de Outubro, que tinha a solução pensada até ao pormenor? A indigitação de um Governo ainda para mais numa emergência como esta supõe ponderação e capacidade de escolha. Ao Presidente da República que funcionava aqui como árbitro, a escolha, não obstante todas as hesitações suscitadas, não parecia levantar grandes duvidas. Desde logo a possibilidade de Governos de Gestão ou de iniciativa presidencial era uma possibilidade meramente teórica porquanto o Presidente nunca se mostrou disponível para arriscar uma tal escolha. O que exigia eram garantias de que a escolha reunia condições para vingar mas não outra coisa. E foi afinal o que aconteceu, não obstante ter incorrido no exagero de exigir condições que iam para além daquilo que podia e devia fazer. Há que dizer que o quase alheamento que Cavaco mostrou relativamente ao que ocorria à sua volta não credibiliza particularmente as responsabilidades presidenciais. A partir de determinado momento, com Bruxelas a pressionar quando Portugal era já o único país do Euro que ainda não tinha feito a entrega do Orçamento, Cavaco Silva continuava a agir como se dispusesse de todo o tempo do mundo. O que não se mostrou assertivo. Para além das responsabilidades exteriores que obrigam, o tempo dispendido com o anuncio da formação do Governo foi realmente excessivo mostrando-se desejável que para tranquilidade das instituições e dos cidadãos o processo se pudesse ter desenvolvido num espaço de tempo mais expedito. Podendo dizer-se que a achega trazida por Cavaco Silva de que na fase em que era Primeiro Ministro tinha estado cinco meses em gestão se mostrou perfeitamente inoportuna em nada contribuindo para credibilizar o processo conforme se mostraria desejável. De resto, vale dizer que a inoportunidade foi a imagem de marca de Cavaco Silva ao longo deste processo em que teria siso desejável a intervenção de um Presidente mais interventivo e que mostrasse outra postura. Mas sobretudo que tivesse sabido escolher o tempo certo para sair.

Carlos Sequeira