1- É bem verdade que em democracia cada povo tem o governo que merece, porque votou, mas também é justo dizer que a velha expressão 'Povo enganado!' tem múltiplas aplicações e pode justificar opções menos lógicas dos eleitores. Terá sido assim na Madeira, em 2011, quando depois de saber que havia uma dívida monstruosa para pagar, parte dela escondida, os eleitores ainda deram uma maioria absoluta aos únicos responsáveis por essa catástrofe. E também que terá sido assim que a coligação Passos/Portas conseguiu ganhar.

Só com promessas de mais dinheiro nos bolsos se compreende que um governo que aplicou medidas de austeridade tão duras tenha conseguido quase 39% dos votos. Promessa que, pelos vistos, não passava de uma ilusão

Se não, vejamos, no início do ano, a possível devolução da sobretaxa de 3,5% do IRS que tem sido retirada dos salários dos portugueses era uma mera possibilidade; mais perto do Verão, em pré-campanha, é anunciado que poderia ser de 19% para, em Setembro, em cima das eleições, chegar a notícia de que seriam devolvidos 35% daquele imposto extraordinário. Depois das eleições o presente caiu abruptamente para 9% e agora está num redondo zero. Se isto não foi uma jogada, pelo menos parece. E cheira mal.

2 – A teimosia do presidente da República é por demais conhecida mas, com a idade, está a passar para o nível da birra e da criancice. Cavaco Silva não é um chefe de gang, como disse um deputado socialista, é um menino birrento que começa a chatear.

Se foi compreensível a indigitação de Passos Coelho, mesmo sabendo que o seu governo não passava, já não há qualquer explicação para esta ronda patética de audiências que acabam por ser um insulto à própria democracia. Nem todas as opiniões juntas de banqueiros, sindicalistas e empresários pode sobrepor-se à vontade e ao voto do povo. É assim em democracia, mas a teimosia do presidente impede-o de aprender. Vamos ver se é amanhã que isto acaba.