José G. N. Rodrigues Não tenho filiação partidária!

Há muito que me interesso por expressões corporais, em especial as faciais. Pois dizem-me tudo sobre as pessoas.

Vem isto a propósito de António Costa! Para quem está atento terá reparado na sua expressão facial logo na noite da revelação dos resultados eleitorais.

Por razões que par mim são óbvias, habituei-me a olhar a política sem dar muita importância aos políticos de carreira, excrescência social, para mim sem lugar em democracia, a menos que houvesse formação política de base apartidária, que permitisse uma formação consciente, isenta.

Participação e empenho político sim carreirismo político, jamais!

Da forma como está, seja qual for a perspectiva que se olhe... cada político julga-se dono de todas as sardinhas e de todas as brasas achando que pode decidir o grau de cozedura segundo o seu único interesse. Mas isso é outra discussão.

O que me traz aqui hoje é apenas a expressão corporal, em especial a facial de António Costa, pela qual me apaixonei.

Independentemente do que ele diz ou faz, o que interessa aqui é o que lhe vai na alma! As palavras apenas complementam o seu íntimo. E delas apenas uma pequena frase me ficou retida: “Evidentemente não me demitirei”.

Nesta altura a sua expressão, pós eleições, ainda não se havia cimentado. Quando entrou na sala de imprensa, nessa noite, trazia um semblante que era um misto de derrota disfarçada e de segurança forçada...

face à atitude que iria desenrolar-se nos próximos momentos.

Quando a brecha se abriu, a decisão estava tomada! Era preciso alguma coragem naquele instante e Costa arranjou-a.

Ergueu a cabeça, recuou o tronco, olhou o vazio à sua frente, dirigiu um relance esgueirado à retaguarda, num misto de apoio, aprovação, prevenção (alguma traição é sempre possível à última hora) e com um nanotremelicar de músculos faciais: “Evidentemente não me demitirei” e... pausa em compasso de espera à reação da assembleia.

Descarregada a ansiedade, a sua face torna-se moderadamente alegre mas expectante.

Nos dias seguintes, e à medida que a sua visão vai proporcionando alguma auto segurança, a sua expressão torna-se radiante! As maçãs do rosto acentuam-se e tomam um tom avermelhado luzidio. Os lábios engrossam e salientam-se ligeiramente. Os olhos, envergonhados, encolhem e encovam moderadamente com um brilho disfarçado. Quando sentado, o tronco encurva-se à frente, as mão cruzam uma sobre a outra e cobrem a zona bocal, tentando esconder o seu íntimo, a sua alma. Imagem subtil mas intensa. Uma caricatura de si próprio! Maravilhoso! Um caricaturista teria feito a obra da sua vida.

Adorável! Que sentido terão estas expressões?

António costa provavelmente já havia conjeturado sobre a hipótese do resultado eleitoral produzir uma assembleia em duas bandas. Fez o seu trabalho de casa e concluiu que poderia GOVERNAR com a SUA MAIORIA pós eleitoral. Costa, no fundo, apenas quer provar a si próprio que é capaz, e a oportunidade, ele não a vai perder. É o que diz a sua expressão facial.

Costa está determinado, mesmo sabendo quão incongruente ou preocupante possa ser para o país a sua atitude (as brasas são dele e as sardinhas também). Costa não perderá a oportunidade de vir a ser primeiro ministro, na sequência destas eleições, custe o que custar!

(...) Só a realidade das circunstâncias, eventualmente imposta por terceiros, o poderá fazer cair em si. Mas aquilo que a sua expressão diz é que nada o fará parar até algo superior a si próprio o travar.

Enquanto se mantiver na oposição o seu ego sairá reforçado.

A sua determinação egocentrista não tolerará um governo à sua direita.

Não por questão ideológica, mas porque sim, porque estamos num momento fácil de oposição e porque algo no seu íntimo lhe afirma que é capaz de mostrar a si próprio que é capaz.

A sua voz constrangida no início do discurso, na noite da derrota, soava coagida esboçando, eventualmente, alguns laivos de segurança. Isso percepcionava-se no tom forte da palavra à saída da boca que não na convicção expressa pelo tremelicar de voz. O esforço para mostrar segurança na palavra era tal que não conseguia travar o gesto de quem empurra algo com a cabeça, como que a afastar a nuvem que lhe pairava na fronte. António Costa não está seguro. Sente-se ferido. Mas de alguma forma intuiu que a sua convicção pessoal dará cobro ao seu desvaire. Costa não apoiará o governo de Coelho, que aliás, para ele mais será o governo de uma lebre, que é como quem diz, mais ágil que um qualquer, mas na mesma ao alcance da sua caçadeira. A decisão da sustentabilidade do governo fica, assim, nas mãos do partido. Nem mais nem menos!

Numa eventual dissolução da assembleia da república, seguida de novas eleições, os resultados serão diferentes, e Costa até poderá sair reforçado.

De tudo isto há uma coisa que ficámos a saber! É que daqui para a frente, um entendimento do PS de Costa com toda a esquerda é possível, podendo concorrer a eleições em coligação! Toma!