O Jardinismo, como modelo de governação, chegará depois de amanhã ao fim. Com ele, formas de governo pouco democráticas de exercício do poder, irão também.
Com uma postura clientelista, Alberto João Jardim transformou o Governo Regional no maior empregador da Madeira, controlando as admissões nos quadros dos serviços públicos, com mão de ferro. Algo impensável num país democrático onde a igualdade de oportunidades e o mérito são incompatíveis com trejeitos de tirania, pois submeter os resultados dos concursos públicos primeiramente ao Partido, para verificação dos que são de “confiança”, antecipando uma triagem, que tem tudo de partidocracia é a negação do Estado Democrático.
Clientelismo que passa também pelos concursos para as Obras Publicas onde os amigos colhem os louros de um despesismo tresloucado onde se cria uma cultura de dependência onde só os “afilhados” comem à mesa do “rei”.
Alberto João Jardim manifestou ao longo da sua carreira politica ser um manipulador sem princípios e convicções de espécie alguma, hábil no conluio e na artimanha, para quem a actividade politica se circunscreve apenas e tão-somente, ao triunfo de um desígnio pessoal destinado a assegurar-lhe a conquista e a ocupação do poder – suprema volúpia para o aventureiro que nunca deixou de ser.
Alguém cuja penúria de valores se torna evidente todos os dias. Alguém que promete e não cumpre, promete e volta a não cumprir, deixa andar e não se rala, para quem a vigarice é uma prova de inteligência. Retrato vivo, em carne e osso, duma gente sem fibra que a tudo se acomoda. De uma realidade que nada tem a ver com o povo madeirense que eu tanto admiro.
Se este ciclo político chegou ao fim, muitas dúvidas e preocupações ficarão para Miguel Albuquerque assumir como herança, dolorosa herança que os madeirenses durante gerações terão de pagar: uma divida de mais de nove mil milhões de euros que acrescem encargos superiores a treze mil milhões; Sociedades de Desenvolvimento totalmente falidas e que escondem uma divida oculta de muitos milhões; um Serviço de Saúde em estado de pré-falência, com graves carências funcionais; uma Segurança Social “regionalizada”, com uma gestão caótica e determinante no estado de carência social como só nos anos 80; uma Educação deficitária e depauperada com indicadores escolares abaixo do exigível, nomeadamente, o insucesso e abandono escolares. Um Turismo, principal fonte de receita regional, com ciclos de desenvolvimento anémicos cujo principal indicador de eficácia de gestão são a dezena de hotéis fechados por insolvência. A ausência de um Plano de Desenvolvimento Estratégico no Turismo para a Região é algo impensável.
Os abusos autocráticos do “regime jardinista” pesam de forma cruel sobre a maioria dos madeirenses, não escapando uma imunidade duma chefia que só tem comparação com os hábitos e costumes da velha ditadura.
Passaram-se entretanto quase quarenta anos e a desesperança é ainda o retrato do estado de espirito de muitos madeirenses que durante décadas, confiaram naquele que se dispôs ao serviço publico. A constatação de que muitos se serviram, ao invés de servirem reflete-se na indiferença e na apatia de quem pode contribuir para alterar o estado das coisas. Com o seu voto e com uma cada vez maior intervenção social e política.
Com tudo isto, não estamos, aqui, perante a morte da política mas no meio de uma transformação que nos obriga a concebe-la e pratica-la de outra maneira.
Entrámos na era da desconfiança, na qual já não se mobiliza positivamente mas se multiplicam os votos “de protesto”. Não votamos tanto por uma coisa como contra alguma coisa, para barrar o caminho a pior e ao pior, para bloquear ou impedir. A capacidade de neutralizar é incomparavelmente maior do que a de configurar. A sociedade aglutina-se, hoje, mais facilmente em torno da indignação do que da esperança. Isto é sabido pelos agentes políticos, que por esse motivo preferem insistir na maldade do contrário em vez de na bondade própria. Com tal recurso, não é estranho que todo o sistema politico acabe por adquirir conotações negativas.
Olhando o passado, e precavendo o desejo, acredito na capacidade do povo madeirense e confio na declaração sublime do Papa Francisco: “O futuro exige hoje reabilitar a política, uma das formas mais altas de caridade”.
Roque Martins