« Sei que a tua espera sob esta neve É mais desesperante do que a morte… Sei que ao passar a teu lado Terei direito só a um olhar de piedade Mas não me aproximarei Ficarei ali, no nevoeiro frio da planície Só para que haja uma presença nesse vazio branco… Uma silhueta distante. E tu poderás sonhá-lo, Esse homem que eternamente irá ao teu encontro, Sem nunca chegar…»
Alguns dias depois, à torreira do sol, a aldeia quebrou as suas amarras: o Olei agitou-se, quebrou os seus gelos, lançou-se em direcção ao Sul. Em direcção ao rio Amur. Inebriados por aquele movimento cheio de frescura luminosa, andávamos desvairados. O céu tombou no fluxo da corrente. Os nossos sonhos navegavam no meio das estrelas ainda intactas…Os três contemplávamos aquele lento deslizar. Aliás, aquela libertação do fluxo primaveril não tinha nada da força devastadora do Amur. E também nada de simbólico. Era muito simplesmente a carapaça hibernal do rio que se rompia. Uma carapaça de dias, de recordações, de instantes, que ia para Sul, no ranger melodioso dos blocos de gelo, no marulhar das torrentes libertas, nos raios de sol. Sobre os gelos flutuantes, vimos passar o rasto das nossas raquetas. Os buracos deixados pelos nossos piques. Depois, foi a vez da Curva do Diabo, os trilhos cavados na neve pelas rodas dos pesados camiões, os salpicos negros de óleo… De súbito, houve um momento inesperado. Uma larga superfície de gelo perto da casa dos banhos soltou-se e, deslizando pela margem, seguiu a navegação angulosa geral. Já só tínhamos olhos para a sua superfície angulosa. Ali se viam distintamente, moldados na neve, as marcas de corpos nus. Eram marcas deixadas por nós no nosso último banho nocturno dois dias antes - o vestígio da nossa beatitude diante do céu estrelado. Aqueles dois corpos de longas pernas afastadas, de braços em cruz, afastavam-se lentamente em direcção à Ásia. Em direcção ao Amur… Foi então que o comboio abrandou a sua marcha e, entrando numa ponte interminável, avançou pesadamente sobre uns carris que se tornam mais sonoros. Enormes pilares de aço começaram a deslizar para lá da janela. Precipitei-me para a porta da saída, agarrei o puxador empurrando com força. A força do vento e a profundidade do abismo repeliram-me para trás. Estávamos a atravessar o rio Amur. O degelo em curso, na sua negra imensidão, era muito diferente daquela marcha simbólica dos gelos que imaginara…Eu não compreendia nada. Mas, inconscientemente, alegrava-me com isso… Não, o Amur não se preocupava com a presença dos contempladores. Ele parecia imóvel, tão lenta era a sua gestação nocturna. Via-se uma planície de neve que se abria como pálpebras gigantes. A pupila negra -- a água -- aparecia, alargava-se, transformando-se noutro céu, um céu invertido. Era um dragão fabuloso que despertava, libertando-se lentamente da sua antiga pele, das escamas de gelo que arrancava ao seu próprio corpo. Aquela pele gasta, porosa, de fissuras esverdeadas, formava rugas, rompia-se, projectava os seus fragmentos contra os pilares da ponte. Ouvia-se o ruído do choque poderoso com que a onda fazia vibrar as paredes da carruagem. O dragão lançava um longo silvo abafado, esfregando-se no granito dos pilares, rasgando as brumas do Pacífico, em direcção ao qual a neve lisa das margens. E o vento trazia as brumas do Pacífico, em direcção ao qual se estendia a cabeça do dragão, e o sopro das estepes geladas onde se perdia a sua cauda… Voltando a mim pouco e pouco, olhei-a. O seu perfil impressionou-me pela sua calma perfeita. O espectáculo, aparentemente, divertia-a. Nada mais. Eu observa-a e, quase fisicamente, sentia que o seu nimbo transparente era muito mais impenetrável do que eu julgara. « É o degelo no rio Amur », podia ler-se nos seus lábios. Sim, aquela noite estava nomeada, compreendida, pronta a ser dita. Eu não compreendia nada! Não compreendia onde acabava o bafo titânico do rio e onde começava a minha respiração. Estávamos de pé, um contra o outro, com os corpos enlaçados. Estávamos calados, olhando-nos nos olhos. Reinava um silêncio absoluto. O céu violáceo por cima…O cheiro de neve…A minha presença muda…E os nossos corpos de uma beleza quase irreal…Eu e a jovem que nunca tinha visto e que nunca voltarei a ver: como se ela tivesse nascido naquele instante de beleza e de silêncio no tempo do rio Amur. E, nesse momento, o comboio partirá lentamente e as estrelas de neve deixarão nas janelas escuras riscos cada vez mais oblíquos. Eu não compreendia nada. Mas, inconscientemente, alegrava-me com isso… Os últimos pilares da ponte desfilaram. O Amur voltou para a noite. O Transiberiano entrava no silêncio espesso da taiga. Sem voltar a fechar a porta, desatei a correr através das carruagens. Sabia que ia reencontrar o Oriente, a Ásia e o interminável conto do chinês sem idade. Aquela vida em que tudo era fortuito e fatal ao mesmo tempo, em que a morte, a dor eram aceites com a resignação e a indiferença da erva das estepes. Onde a loba trazia todas as noites a comida aos seus seis filhotes com as patas amarradas por arames, e os olhava enquanto comiam, e lançava por vezes um longo uivo lamentoso como se adivinhasse que iam abatê-los e que a sua absurda morte precederia em pouco a do seu assassino, também ela cruel e absurda. E ninguém poderia dizer por que razão as coisas se passavam assim, e só a saga monótona no fundo de um compartimento a abarrotar podia dar conta desse absurdo. Atravessei corredores vazios e corredores onde pendiam pés descalços ou com meias de lã, carruagens cheias da respiração pesada e dos gemidos dos dorminhocos, e carruagens onde zumbiam intermináveis relatos de guerra, de campos penais, de taiga - todas essas carruagens que nos separavam do Ocidente. Ao subir para a tábua estreita do porta-bagagens, sussurrei no escuro ao meu amigo, deitado em frente: - A Ásia, escuta, a Ásia… Uma única palavra e tudo está dito. Não podemos fazer nada. A Ásia agarra-nos com os seus espaços infinitos, com a eternidade dos seus Invernos e com aquela saga interminável que um chinês russificado e louco - o que equivale à mesma coisa - continua a contar num canto escuro. Esta carruagem cheia é a Ásia. Sabes, esquecemo-nos que era preciso escolhermos a nossa carruagem de uma vez por todas, que não se pode estar ao mesmo tempo aqui e lá. O comboio é comprido. E a carruagem da Ocidental já atravessou o Amur…Sim, eu lançava estas réplicas desordenadas no escuro sem sequer saber se era ouvido pelos meus dois amigos. Mas, quanto mais eu contava, mais sentia dissipar-se a palpitante singularidade do meu encontro…Por fim, calei-me. E não foi com quem tentava falar, mas o outro amigo (estávamos deitados cabeça com pés no porta-bagagens) que perguntou num sussurro nervoso: - E nós, onde é que estamos? O amigo com quem falara respondeu-lhe, como saindo de uma longa reflexão nocturna: - Nós, somos o pêndulo. Entre os dois…A Rússia é um pêndulo. - Quer dizer, uma coisa qualquer - resmungou o outro - nem uma coisa, nem a outra… Sinto o seu suspiro no escuro, voltando-se de costas, depois murmurou: - Sabes, meu amigo, ser nem uma coisa nem outra é já um destino…
Renata Camacho