Camilo José Cela via no penalty “a pena de morte do futebol”. Blas Tronchón, com a alcunha de Harinita, era, para o autor de Onze Contos de Futebol, “o verdugo, o feroz e frio executor”. Mas, nem sempre o castigo máximo provoca o baloiçar da rede. Se a bola vai para as alturas ou se defende o guarda-redes, a desfortuna enche de vergonha quem falha e a multidão, engolido o silêncio, retalha-se entre o alívio e o sentimento de indignação. No pequeno livro que escreveu em Palma de Maiorca, entre 24 de setembro e 4 de outubro de 1963, há lendas que só existem no imaginário do escritor, como a de Sancho Adaja, o Jovem, que “com o pé esquerdo, se apanha uma bola a jeito, é capaz de a mandar até ao fim do mundo”. Por isso, não desfilam nomes como Di Stéfano e Gento, do Real Madrid, ou Ramallets e Luís Suárez, do Barcelona. Entre os ídolos, há Exuperancio Expósito, “o extremo-esquerdo e herói do Asilo F.C., que esconde uma alma de mansa borboleta por detrás do seu feroz aspecto”. O sucesso deve-se a Sor Catalina, porque “a superiora das freiras de caridade prepara-lhe ponches de vinho xerez e ovos batidos (com muito açúcar) para melhor e com mais pontaria acertar na bola”. Este mestre da ficção espanhola estava ainda longe de entrar na lista da fama de Alfred Nobel (como Thomas Mann, Bertrand Russell, ou John Steinbeck) quando se dividiu entre “o pé na bola ou a parábola da juventude para toda a vida”. Numa viagem pela floresta do futebol, que há muito deixou de ser virgem, descobre empresários (com certeza sem a carteira da FIFA) como “o senhor Teopempo Luarca Novillejo, mais conhecido por Pichón, que importa futebolistas como quem importa motores a gasóleo, e exporta futebolistas como quem exporta citrinos e derivados”. Contudo, o grande patrão do desporto-rei – censurou o Prémio Nobel de Literatura em 1989 – desqualificou Gainsborough XXI, “por ser cavalo”, e, devido a esse contratempo, “tornou-se treinador e passou a prestar os seus serviços no F.C. Waldetrudis (alta escola), a equipa que, levando até às últimas consequências as tácticas defensivas, jogava com dois guarda-redes: Teógenes, guarda-redes direito, e Teogonio, guarda-redes esquerdo”. Em oitenta e oito páginas, que nos levam à outra ordem do futebol, Camilo José Cela exclama, tal qual Ovídeo, que “nós dois fazemos a multidão (nos duo turba sumus) e nem Napoleão nos mete um golo”.
Juvenal Xavier Jornalista