O verso de Chico Buarque que titula este texto é o espelho dos últimos dias. O Brasil acolhe uma competição que tem em largos milhares de brasileiros os maiores adversários. Num país onde grande parte da população ainda não tem acesso a serviços de saúde e educação de nível satisfatório, foram gastos largos milhões de euros na construção dos 12 estádios onde se desenrola o Mundial. Só o estádio onde Portugal defrontou o Gana – o mais caro de todos - teve um custo na ordem dos 485 milhões de euros, 108% a mais do que previsto inicialmente. E nenhum dos clubes daquela cidade brasileira está sequer na primeira divisão. Há dinheiro a mais no futebol… A FIFA, uma espécie de entidade supranacional, consegue inclusive mudar a legislação nacional, permitindo que o consumo de cerveja nos estádios fosse possível, ao contrário do que estipula a lei brasileira. Ou não fosse uma cervejeira um dos patrocinadores do evento. Há dinheiro a mais no futebol… O modelo de desenvolvimento em que assenta a participação de um país na realização deste evento tem sido baseado na inflação provisória dos números da economia e do emprego, mas em muitos casos na construção de obras que não correspondem às reais necessidades da população. Idealmente, uma organização desta natureza deveria servir também para melhorar redes viárias e acessos a serviços de saúde. Há dinheiro a mais no futebol… Suspeito que num par de anos o Brasil irá confrontar-se com a desolação que Portugal viveu após o Euro 2004, de que os estádios do Algarve, Leiria e Aveiro são apenas três exemplos de dinheiro mal gasto e total ausência de planeamento. Erros pagos com os nossos impostos. [email protected]

Luís Sena-Lino Consultor de Marketing e Comunicação