Raramente escrevo sobre futebol. Desta vez abri uma excepção pois tenho de abrir o coração e desabafar o que me vai na alma. Gosto de futebol, de o perceber e sobretudo entender os seus meandros. Cada vez mais gosto de futebol e de tudo o que gira por detrás dele. Raramente comprava ou lia jornais diários da especialidade e hoje faço-o com interesse. Adoro estar informado e saber o que se passa à minha volta, não tanto pelo que se diz e conta, mas sobretudo para perceber o porquê das coisas e o que move todo este mundo. E devo dizer que cada vez mais gosto de futebol. Adoro entender o que leva à nossa selecção ser tão vaidosa, com jogadores tão vaidosos, cheios de um ego inalcançável e de tão poucos resultados. Mas até agora estivemos “muito bem”. Estivemos no nosso “melhor” e à nossa “altura”. Temos o que construímos e a mais não somos obrigados. Afinal de contas somos mesmo “companheiros” e amigos dos nossos irmãos espanhóis. Se eles levaram goleada, nós também. Se eles vão mais cedo para casa, nós também. Afinal de contas, quando a nossa selecção se estreou oficialmente, a 18 de Dezembro de 1921, foi num jogo contra a Espanha, e já nessa altura perdemos por 3-1. Começamos bem. Hoje o que se vê, é o espelho do nosso país: individualistas, a pensarem cada um deles no seu umbigo (ou cabelos, barbas, brincos, cortes de cabelo ou outros), a jogarem em função de apenas um jogador (por sinal madeirense,o melhor do mundo e o único capaz de levar um país inteiro às costas) e incapazes de saberem que o futebol é um jogo colectivo, com 11 jogadores. O que temos assistido é a uma verdadeira fogueira de vaidades, onde existem poucos sorrisos para com centenas de pessoas que esperam ansiosamente por um autógrafo ou um adeus ou um simples olhar…, vêem-se canais de televisão a transmitirem em directo, durante horas, a parte detrás dos autocarros a saírem de um hotel para um estágio ou destes para o aeroporto… incrível, não há outras palavras. O país pára, mesmo antes de tudo começar. São todos elevados a campeões, mesmo antes de terem chegado ao Brasil. O pior vem depois, logo que o árbitro apita para começar o jogo: começam logo a cair com lesões, a baixar os braços e a deixar o país sem qualquer esperança, um treinador a mandar recados a dizer que se vai embora, mesmo antes de acabar a primeira fase. Mesmo aqueles que escolheram os seis jogadores estreantes para ir ao Mundial, devem estar a pensar que não foi, com certeza, a melhor decisão para fazer elevar o valor dos passes desses jogadores. Talvez até tenham diminuído o seu valor depois deste desastre. Até os bancos caíram em (mais) desgraça. Houve bancos a lançarem aplicações a prazo com taxas especiais de depósitos, para aplicações válidas, enquanto a selecção estivesse no mundial. Só não esperavam que fosse por tão pouco tempo. Fizeram-se produtos que privilegiavam os depositantes em função das vitórias portuguesas. Em dois jogos, zero vitórias, apenas um ponto e a quase certa eliminação do Mundial. Mas de cabeça erguida, pois somos sempre vencedores e os melhores do mundo. Às vezes, dou por mim a olhar para as outras selecções e para os seus níveis de jogo, de empenhamento dos jogadores e até fico baralhado. Não quero ser má-língua, mas é difícil encontrar alguma selecção pior que a nossa. Nós, só seremos diferentes e melhores, quando soubermos jogar com onze jogadores, em função de um colectivo e de um objectivo. Quando percebermos que as vitórias fazem-se de conquistas e resultados e não de teorias e de apostas. Treinadores de bancada, são como quase todos os políticos que temos: só acertam depois dos jogos ou das eleições ou mesmo depois de terem sido governo, pois enquanto lá estão, não dão uma “pr’a caixa”… A selecção portuguesa de futebol está para o mundial, tal como os bancos estão para os seus clientes e os políticos para os seus eleitores: cada vez mais em baixo, sem esperança, individualistas, a pensarem nos seus umbigos, com verdadeiros sinais de desgaste, cansados e sem qualquer esperança. Só nos resta uma coisa. Aprender com a vida, de uma vez por todas, que as grandes vitórias atingem-se com muito trabalho, sem vaidades, com respeito, trabalho, dedicação, humildade, espírito de grupo e por causas nobres… Falta atitude. Tudo o que vier a mais, está a mais…

Pedro Calado Administrador