Ao assistir ao Campeonato do Mundo de Futebol lembrei-me da carta de Pero Vaz Caminha (Carta do descobrimento do Brasil) que, a 1 de Maio de 1500, escreveu a el – Rei D. Manuel I, na qual o cronista discorre sobre o então achamento do Brasil. Hoje, passados seis séculos, chegámos ao Brasil comandados pelo madeirense Cristiano Ronaldo. Os “marinheiros” do Século XXI tiveram menos sorte do que os comandados por Pedro Alvares Cabral. Não encontraram praias repletas de indiazinhas “com as vergonhas à mostra”, como descreveu Caminha, mas depararam-se com o património da Língua. Também encontraram o produto da mestiçagem (europeu, africano e índio que deu origem ao povo brasileiro).

Depararam-se com a mesma língua, com a mesma religião e com a mestria da diplomacia, que antes fizera de nós um povo imperial, conquistador, afável e integrador. Como português sinto um enorme orgulho na nação que os meus antepassados ajudaram a constituir. Tirando a escravatura (normal no século XVI) nós não deixamos traumas, não extinguimos as diferentes formas de expressar a arte, a cultura, a dança e a língua. Chamam-nos irmãos e recebem-nos em euforia. Não necessitamos de oferecer campos relvados à população para tê-la do nosso lado. Os brasileiros amam-nos porque sentem que somos parte deles. Haverá património mais valioso do que este?

Como disse Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego (…) Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. (…) Este campeonato do Mundo não serviu para gostarmos do selecionador, mas deu-nos a possibilidade de, novamente, aferirmos o valor da nossa língua, da cultura que ajudamos a espalhar. Se a participação no campeonato do mundo de futebol serviu para alguma coisa, foi para relembrar-nos que podemos atravessar o Atlântico e comunicar sem necessidade de tradutor. Tudo isto tem um valor que deve ser explorado nas mais diversas áreas da sociedade. O património da língua deve ser quantificado e rentabilizado. Mais do que os golos que marcámos e aqueles que ficaram por marcar, participámos numa imensa festa na qual o português assumiu papel principal. Mais do que as boas e más opções tácticas e técnicas, sentimos que também no Brasil jogamos em casa, como jogaríamos em Angola, em Moçambique, em Timor, em Cabo Verde e em toda a imensa pátria constituída pelos falantes de português.

P.S. Termino com um abraço destinado à comitiva do MARÍTIMO partiu este domingo para os Açores tendo em vista a participação no World Copa Foot 21, na modalidade de futebol. Seis equipas de atletas, acompanhados pelos pais, partiram à conquista do Torneio. Desejo toda a sorte na obtenção do caneco. De qualquer forma, já são os vencedores da dinâmica, mobilização e empenho. Parabéns.

Luís Filipe Santos