Venceu a abstenção. Domingo, os cidadãos dos 28 Estados Membros foram a votos e o resultado global foi deveras preocupante. A Europa mudou muito nos últimos cinco anos. A resposta dada pelas instâncias europeias à crise, aparentemente, não satisfez os eleitores. A abstenção à escala europeia ganhou as eleições, tendo atingido alarmantes 66% em Portugal, ou seja, só votaram 34% dos cidadãos eleitores e entre os votantes, 7,5% votaram branco ou nulo. Significa isto dizer que apenas 27% dos eleitores portugueses votaram em partidos políticos. Significa ainda que o partido mais votado recebeu 10% das preferências da totalidade dos cidadãos com direito a voto. O PCP, por exemplo, que apresentou uma moção de censura ao Governo, fê-lo em nome de pouco mais de 4% dos portugueses que podem votar. Internamente, o que se poderá aferir destes resultados? O partido que trouxe Portugal ao resgate, e a coligação que está aplicar a terapia da austeridade, foram penalizados e valem no seu conjunto menos de 60% do eleitorado, o que colocará em sério risco futuras reformas estruturais, devido a uma possível “balcanização” parlamentar. Somados, os dois partidos mais à esquerda do espectro parlamentar português perderam um deputado. A grande novidade foi a eleição de Marinho e Pinto a quem, curiosamente, não se conhece qualquer posição sobre a Europa, ou antes, sabe-se apenas que apoiará o alemão e socialista Martin Schulz para presidente da Comissão Europeia. Em toda a Europa ganharam terreno os eurocéticos, os populistas e os radicais. Perderam terreno os partidos tradicionais. Há sinais absolutamente preocupantes. A extrema-direita ganhou em França, Áustria e na Dinamarca, progrediu na Grécia e na Holanda. Os eurocéticos ganharam no Reino Unido e na Bélgica. Significa isto que, quer em Portugal, quer em toda a União, os cidadãos estão desiludidos e votaram em partidos ou movimentos que, de forma inteligente, “cavalgam” o descontentamento. A Europa tem, objectivamente, de definir-se. Os dados supracitados levantam questões que devem ser respondidas com clareza, sem esquecer que algumas agências internacionais que apoiam os maiores decisores já deram o alerta: - os populismos assumem hoje contornos de risco global. Como conciliar maior integração com maior solidariedade? Que soluções para os países com dívidas soberanas excessivas? Como aproximar as instituições dos cidadãos europeus de forma efetiva? Como dar resposta ao novo mundo global, mantendo vivo o modo de vida e a organização social europeias? Como unir a diversidade em torno de um projeto comum? Sem responder a estas questões, a União arrisca-se a desintegrar-se, vítima de discursos fáceis e de retóricas inflamadas. Em Portugal, os partidos tradicionais, todos eles, têm também de refletir sobre os sinais que estas Eleições deixaram. Sinais esses que, recorde-se, já vêm de trás, não constituindo absoluta surpresa. Cá, como na Europa, ou tratamos do regime ou o regime tratará de nós. Saibamos estar a altura.

Rui Barreto Deputado do CDS na AR