Na década de 1960 havia uma cigana que, de trouxa à cabeça, percorria todos os sítios e lombadas da freguesia da Calheta. O negócio corria bem, à medida que o tempo passava vendia cada vez melhor, umas calças aqui, um vestido ali, uma saia acolá. No sítio da Vargem havia uma costureira afamada que vestia os mais abastados, a mulher do Presidente da Câmara, as filhas do Regedor da Freguesia, enfim, todos aqueles a quem a sociedade de então privilegiava com mais recursos. Sempre que a cigana passava à porta da costureira, parava e mostrava as novidades que trazia na trouxa. A costureira mexia, remexia, mirava, voltava a mirar, mas nada comprova. Depois de anos com muito tentar, a cigana, farta de perder tempo com a costureira, deixou de lhe passar à porta. Logicamente, sendo costureira, costurava a sua própria roupa não carecendo de a comprar à cigana. Desde então, gradualmente, com o passar dos meses, as mulheres da freguesia começaram a perder interesse pela mercadoria da trouxa. O negócio corria mal. As vendas baixavam. Agora, para vender uma única peça de roupa, a cigana cansava de subir e descer vários sítios e lombadas. Perguntando-se porquê, interpelou uma das suas mais antigas clientes, que lhe respondeu: “Sabe, é que antes a senhora trazia roupas mais modernas, como aquelas que a mulher do presidente da Câmara e as filhas do regedor da Freguesia usam para ir à missa...” Só então a cigana percebeu que a costureira da Vargem deixara de copiar os novos modelos que trazia na trouxa, os quais, por sua vez, eram vestidos por quem ditava a moda na freguesia. Pois é, para poder ganhar é preciso saber perder. Às vezes um contratempo não é apenas um contratempo, pode ser o elemento essencial que faz determinada realidade. É essencial ver o quadro no seu conjunto, não bastam os pormenores.
Hélder Spínola Professor universitário