Ensinaram-me, enquanto criança, que a liberdade era o direito de fazer tudo até que este “tudo” interferisse com a liberdade dos outros. Mais para a frente, fui aprendendo, que nalguns casos o bem comum se sobrepunha à liberdade individual, mas que esta era uma questão muito sensível, e que tinha de ser gerida de uma forma muito cuidadosa.
O Portugal do pós 25 de Abril é um país livre, uma democracia. Mas sê-lo-á no seu todo? Tenho dúvidas. E tenho dúvidas particularmente em relação á Madeira.
Porquê?
Nunca noutro local (excepto a Alemanha nazi) ouvi responsáveis em posições de decisão governamental referir-se à população que administram como “povo superior”.
Nunca numa democracia ouvi os mesmos responsáveis governamentais a referir-se publicamente à população que administram como “cachorros”, só porque se manifestam contra uma qualquer decisão governamental.
Nunca numa democracia se levou até ao limite a prática eleitoralista de inaugurar de tudo em vésperas de eleições, chegando ao cúmulo de inaugurar asfaltagens que ainda não se tinham feito, de obras que estavam por acabar, e de abrir várias vezes a mesma obra.
Nunca numa democracia se impõem decisões como aqui. Porque quero, porque eu é que mando, porque eu é que sei, e porque a oposição é incompetente e come criancinhas ao pequeno-almoço. Ou porque é manipulada pela CIA, pela maçonaria e pela trilateral. Tratar assim uma população não é considerá-la, como nos discursos oficiais, um “povo superior”. É, pelo contrário, menosprezá-la, infantilizá-la, e tratá-la como um “povo inferior”, que é preciso catequizar usando como estimulo os seus receios.
O discurso público do PSD na Madeira, quer em termos do dito quer do não-dito, não tem sido sério. E é aliás no âmbito deste nível de discurso, e do nível dos candidatos sistematicamente apresentados por este partido a eleições, que se têm visto as prioridades do PSD em termos de investimento: a construção, desenfreada e destrutiva, sem regras, para satisfazer o lobbie do betão, e empregando mão-de-obra geralmente pouco qualificada; o tipo de turismo que se propõe para a Madeira, apoiado em empresários ligados ao regime, e que emprega mão-de-obra geralmente pouco qualificada. A educação e a cultura não interessam porque ensinam as pessoas a pensar. E o pensamento autónomo é perigoso para este PSD
Os quadros mais preparados são geralmente integrados na administração pública, ou desmotivados, até que se integrem no “regime”, ou saiam da ilha, o que tem sido o destino de muitos dos quadros formados mais recentemente. A Madeira tem perdido muitos trabalhadores mais jovens nos últimos anos. Tenho a certeza que são também os mais preparados que mais depressa saem da ilha, em busca de outros horizontes.
E assim se perpetua o poder deste ditadorzeco que há quarenta anos nos governa…
Roberto Loja