- Faz favor Sr. Deputado, pode fazer o favor de entrar e de se sentar. A Comissão de Regimento e mandatos aceitou o seu requerimento de pôr fim à suspensão de mandato e tem direito a tomar o lugar antes ocupado pelo Sr. Deputado Francisco Gomes. - Sra. Presidente, eu não quero ir para ali! - Como? - Eu não quero misturas. Eu não sou deputado da maioria que apoia este Governo, eu sou ex-presidente e o meu estatuto é diferente. - Oh Sr. Deputado aqui todos os deputados são iguais e não sei se sabe mas estão integrados em Grupos Parlamentares ou são independentes. O Sr. deputado é independente? - Não Sr.ª Presidente, eu sou pela autonomia e não pela independência! - Então tem de estar atrás do Sr. Dr. Luís que é quem manda no seu grupo. - Cruzes credo! Oh Guilherme, então eu vou ser mandado por esse Luís?! Não me tinhas dito que o meu estatuto era outro e que eu poderia fazer umas patifarias pela liberdade da nossa Região? - Alberto, tem calma. Isto é só o começo!.... - Sra. Presidente, eu queria usar da palavra! - A que título? - Eu sei lá… Olhe, por ter sido o Presidente da Região. - Oh Sr. Deputado não conhece o Regimento? Aqui há regras e o Sr. só pode usar da palavra nos limitados tempos que o seu Grupo Parlamentar lhe permitir. - E se eu não quiser ser deste Grupo Parlamentar?! - Então aí é que os seus direitos de falar vão pela água abaixo…. - Guilherme, chama o Francisco de regresso que eu aqui não fico. Vou para Bruxelas ou para Estrasburgo. Talvez lá possa lutar pela liberdade da Região! - Mas, já vais embora? E o processo disciplinar? Quem nos irá defender? E quem é que agora nos vai respeitar? O que é que o Pedrinho vai fazer de nós? - Tem calma que eu já vou resolver. Isto não fica assim! - Srs. Deputados, silêncio que vamos iniciar a sessão. Arrumou os papeis, fechou a pasta e dirigiu-se à escadaria. Chamou o táxi: “olhe leve-me a Belem”. - Aos pastéis? - Oh homem, cá nada. Quero lá saber de pastéis! Já empastelado ando eu!. Leve-me ao Cavaco. Mas vá pela porta de trás que é por onde eu entro. Lisboa fria e chuvosa, viu o táxi percorrer em alta velocidade. Lá dentro, tentava-se ligar para a terra. Era preciso anunciar a nova investida. O telemóvel do director do jornal estava impedido. À segunda tentativa finalmente a secretária. Dizia que estava em reunião com o novo líder para decidir o que fazer. Agora não era oportuno nem aconselhável qualquer conversa. Talvez só à noite para o telefone de casa!.... Depressa chegou ao palácio presidencial. A porta de trás estava fechada e não se abriu mesmo após as fortes investidas no férreo batente. - Vamos tentar pela frente! - Mas quem é? O Sr. Presidente já sabe? Foi marcada audiência? - Oh homem, você não me conhece? Tá com amnésia ou o que é? Diga lá ao Aníbal que eu preciso muito de falar com ele. Ele tem de dissolver a Assembleia da Republica! - O Sr. Presidente manda dizer que não tem agenda. Ademais está em reunião com o Sr. Primeiro-ministro e ambos estão a combinar a deslocação conjunta que vão fazer à Região, para assinar a revogação do PAEF. - Como!? Nas minhas costas? Sem nada me dizer? Mas estes gajos estão loucos? - Oh senhor Dr, mas o senhor não apresentou a demissão? Não disse que ia embora? Agora quer continuar a ter papel de Presidente? - Oh Sr. taxista, vamos embora. Ponha-me no Aeroporto. Vou apresentar queixa às Nações Unidas. É o direito de indignação do povo colonizado! - (entredentes) Poça, já aqui há dias foi o dos noventa anos. Agora é este. São todos iguais. Não perdem o gosto de mandar!
Ricardo Vieira