A praia do Porto Santo vai servir de campo de ensaio para três metodologias de protecção costeira, numa empreitada de 2,1 milhões de euros que pretende contrariar a erosão e reforçar a capacidade natural de defesa do litoral. A intervenção combina o aproveitamento de areia retirada do Porto de Abrigo, a alimentação artificial da praia da Fontinha e a reconstrução do sistema dunar na Ponta-Calheta, tal como o DIÁRIO tinha noticiado na sua edição em papel na passada quarta-feira, 21 de Outubro.

O secretário regional de Turismo, Ambiente e Cultura, Eduardo Jesus, esteve a acompanhar no terreno os trabalhos, que envolvem a movimentação de cerca de 170 mil metros cúbicos de sedimentos. A operação, da responsabilidade da Direcção Regional do Ambiente e Mar, é financiada através dos projectos LIFE DUNAS e Praia Sustentável.

Mais do que executar obras, a empreitada pretende perceber quais as soluções mais eficazes para as características da costa porto-santense. As diferentes metodologias serão sujeitas a acompanhamento técnico e ambiental, permitindo comparar resultados e recolher informação para futuras intervenções.

"Estamos a testar diferentes metodologias, com objectivos bem definidos e monitorização prolongada, porque a protecção costeira exige continuidade, conhecimento científico e capacidade de adaptação", sublinha Eduardo Jesus, em declarações reproduzidas pelo seu gabinete.

Areia do porto vai reforçar a praia

Uma das operações consiste na dragagem de 75 mil metros cúbicos de sedimentos do Porto de Abrigo. Em vez de serem simplesmente retirados, os materiais serão depositados na zona submersa da praia, entre a Central Dessalinizadora e o cais, procurando melhorar as condições de navegabilidade e, simultaneamente, reforçar o sistema praia-duna.

A solução recupera uma experiência já realizada em 2017, quando o aproveitamento dos sedimentos provenientes do desassoreamento portuário permitiu conjugar a melhoria das condições do porto com a alimentação da praia.

A dragagem começou na janela de trabalho prevista entre 19 e 24 de Outubro, aproveitando a ausência do navio Lobo-Marinho. A conclusão desta componente está prevista até 15 de Novembro.

Fontinha recebe areia pela primeira vez

Na zona da Fontinha, em frente ao Parque Urbano, será testada pela primeira vez no Porto Santo a alimentação artificial da praia através da colocação directa de areia. Estão previstos cerca de 7.800 metros cúbicos de sedimentos provenientes de manchas de empréstimo identificadas na costa sul da ilha.

Antes da intervenção, foram estudadas a compatibilidade dos materiais, a granulometria e a qualidade da areia, bem como as consequências que a sua extracção poderá ter nos ecossistemas marinhos. Um perito da Agência Portuguesa do Ambiente acompanhará os trabalhos, que deverão decorrer entre 10 e 12 de Novembro, depois da montagem do estaleiro e da vedação da área.

A experiência permitirá avaliar a evolução dos sedimentos colocados e a resposta da praia, criando uma base de conhecimento para decidir se esta técnica poderá vir a ser utilizada noutras áreas.

Ponta-Calheta testa reconstrução das dunas

A terceira frente de intervenção situa-se na Ponta-Calheta, no âmbito do projecto LIFE DUNAS. Aqui, o objectivo é reconstruir o cordão dunar através da utilização de cerca de 87 mil metros cúbicos de areia provenientes de uma mancha de empréstimo previamente estudada.

A operação-piloto pretende avaliar a eficácia da metodologia e perceber em que condições poderá ser reproduzida noutras zonas do Porto Santo ou da Região Autónoma da Madeira. As dunas desempenham um papel importante no equilíbrio sedimentar e funcionam como uma barreira natural perante a acção do mar e os fenómenos meteorológicos adversos.

Os trabalhos de repulsão de sedimentos para a praia e de reconstrução dunar estão programados para decorrer entre 25 de Outubro e 17 de Novembro.

Efeitos serão avaliados durante dois anos

A intervenção tem por base um estudo da dinâmica sedimentar da praia do Porto Santo, que aponta para a possibilidade de contrariar a tendência erosiva através da introdução de volumes moderados de areia, desde que os resultados sejam acompanhados ao longo do tempo.

Os programas de monitorização identificaram recuos ligeiros, mas sistemáticos, da linha de costa, associados à dinâmica natural da praia e à redução gradual da areia disponível no sistema dunar. A subida do nível médio do mar constitui também um factor a considerar: na Madeira, este indicador aumentou cerca de 20 centímetros desde 1970.

A monitorização prolonga-se até 2028 e abrange a evolução das áreas intervencionadas, os volumes de sedimentos movimentados e os eventuais impactos da extracção de areia nos ecossistemas marinhos. A fiscalização está assegurada por uma equipa contratada para o efeito, com acompanhamento da Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura, da Autoridade Marítima e dos parceiros do LIFE DUNAS, entre os quais a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Eduardo Jesus considera que a intervenção deve produzir resultados concretos na protecção do litoral, mas também conhecimento que permita melhorar futuras decisões. A avaliação das três soluções deverá ajudar a determinar quais as metodologias mais adequadas à realidade costeira do Porto Santo.