A história acaba bem mas, a meu ver, de forma incompleta. A gata borralheira sonhou com um casamento que a libertasse da condenação doméstica em que a madrasta a tinha destinado. Na noite da imaginação as abóboras transformaram-se em coches e os ratos da lareira transfiguraram-se em pajens ao serviço de uma viagem ao palácio, culminando valsada nos braços de um príncipe encantado. O toque dos sinos fez-lhe ver que a realidade era bem mais forte que o sonho de uma noite e não fosse um pé enluvar num sapato de cristal, a história não seria de crianças.
No final, o conto louva a felicidade do casal e, a um canto, duas meias irmãs roídas de inveja porque os seus pés não eram para tão vítreo chinelo. O que a história não relata são as consequências da amargura dessas irmãs, defraudadas no seu intento, tão legítimo como o da felizarda, de serem as princesas do Reino. É certo que os desenhos da história colocavam-nas de hediondas feições e narravam frequentes e cruéis sevicias à meia-irmã, que conduzia a ingenuidade infantil a aplaudir o final e não perceber a injustiça da escolha apenas baseada no número de calçado.
A “moral” da história da Cinderela parte de um erro. Três irmãs, vivendo um palácio, à custa de um pai comum, julgaram-se no direito exclusivo e indeclinável de continuar as mordomias do principado pelo casamento. Nenhuma questionou a si própria porque é o seu destino tinha que ser aquele e não outro. Nenhuma delas perspectivou ser dama de companhia da irmã ou qualquer outra função que não necessariamente princesa. As preteridas restaram no remoinho da inveja, tão nocivo a elas próprias como, se calhar, à felizarda irmã.
O que o conto não esclarece é que a derrota é difícil de gerir especialmente para quem colocou nesse objectivo falhado toda a realização da vida. O que a história não desvenda são as dificuldades em aceitar o sucesso dos outros quando não causado por razões que julgamos racionais.
Há quem julgue a democracia como um sapato de cristal quando, no voto, inexplicavelmente, a escolha incide sobre quem não era esperado. A surpresa eleitoral tem esse lado fantástico para quem ganha, mas também tem esse amargo de boca para quem não vê no voto senão esse sapato cristalino que acerta sem se saber porquê. Há quem não consiga explicar as derrotas eleitorais, mas pior ainda não suporte as vitórias eleitorais dos outros.
Nem sempre é assim e o normal é assistirmos, pelo menos publicamente, a uma aceitação dos resultados pelos preteridos, até explicados por circunstâncias que nem sempre dependem da vontade dos candidatos. Foi assim recentemente nas eleições directas de um partido a nível nacional.
A meados de Dezembro há a primeira volta e possivelmente no final do mês torna a haver escolha, aí decisiva para a liderança do, até agora, primeiro partido regional. Pelo debate alimentado nos media que temos vindo a assistir, julgo que vai ser difícil o day after. Os que ora se candidatam demonstram difícil capacidade de entenderem uma escolha que não recaia em si próprios. Diria até que têm revelado desconfiança do próprio partido onde se candidatam, como se fosse estranho e distante, como um príncipe num castelo enclausurado insondável nas suas escolhas. O voto virá surpreendente para muitos deles e julgo não estar a fazer um prognóstico errado ao afirmar que há um síndrome de irmã de Cinderela que paira no horizonte.
Quem perder vai aceitar ou colocar-se-á a um canto, roído de incompreensão e amargura? E que comportamento se poderá esperar no futuro da agremiação – porque é da credibilidade de um partido que se trata – quando se pressente o fel da derrota a correr nos pequenos poderes alaranjados?
As perguntas traçam um futuro de grande incerteza mas impõe necessariamente a necessidade de romper este ciclo palaciano de mordomias em que tresloucadas irmãs se digladiam à procura da escolha de um príncipe encantado.
Ricardo Vieira