Nestes últimos tempos, a palavra “crise” tem sido muito usada para caraterizar a situação em que vivemos e muitos afirmam que, neste contexto, especialmente os mais jovens, os nossos filhos, não estão devidamente preparados para enfrentar as dificuldades, para fazer sacríficos, para lidar com os insucessos e os fracassos.
Esta é, de facto, uma questão para a qual é preciso pensar bastante. Como preparar os filhos para o fracasso? Qual a importância dessa preparação para o seu futuro? Eis duas simples perguntas que implicam respostas bem mais difíceis e complexas. É verdade que os fracassos nunca se preparam e por muito que se preparem nunca são como foram imaginados.
Os fracassos dão à vida o imprevisto, o imprevisível, que ela merece, têm outro alcance, apresentam outro horizonte, outro requinte e não posso dizer outro sabor, porque invariavelmente são dolorosos. Mas, pode-se fazer alguma coisa para ajudar as pessoas a lidarem com os seus fracassos e com os fracassos dos seus filhos.
Desde logo, é preciso chamar a atenção dos adultos e dos pais para o modo como estes parecem, na maior parte das vezes, conviver tão mal e lidar tão desajeitadamente com a tristeza dos filhos, com os seus fracassos. Podemos dizer que quanto mais os jovens possam conviver livremente e de forma segura com a sua tristeza, mais estes se preparam para conviver e lidar com os fracassos na vida.
Então se se tem mais do que um filho, a situação é ainda mais complexa, pois os filhos não estão contentes, todos ao mesmo tempo. Há, portanto, um ressoar da dor deles dentro da nossa dor, e isso faz-nos recuar à nossa própria dor e apercebermo-nos da nossa impotência, porque, as vezes, nós adultos e pais, vendemo-nos como se fôssemos tão omnipotentes em relação aos nossos filhos que, uma pequena dor, faz-nos logo tremer dramaticamente e gritar: “tirem-me daqui”, “tirem-me deste filme”.
É evidente que é ótimo que os pais queiram prevenir as dores aos filhos e é isso mesmo que os pais bondosos fazem. É, por isso, decisivo que os pais entendam que os filhos que não forem capazes de viver a tristeza, de lidar com ela não vão ser capazes de lidar com os fracassos, nunca vão ser verdadeiramente felizes.
No fundo, a forma como os nossos filhos são capazes de responder quando experimentam um sofrimento qualquer, uma perda, uma desilusão, vai torná-los capazes de reinvestir na sua própria vida e, assim, eles crescem e avançam. E só fazem isso se os pais, que estão ao seu lado, não viverem nessa ideia absurda, muito generalizada, de que a tristeza é proibida e o fracasso inaceitável. Até parece que não podemos viver as nossas tristezas e dores. E quando os mais jovens, os nossos filhos, estão com as suas tristezas e dores e ouvem os pais dizer algo como: “por favor não venhas com essas tristezas que ainda me pões triste”, estes pais fazem muitos mais estragos nos filhos do que qualquer fracasso que estes experimentam, porque acabam de lhes transmitir a ideia que eles (pais e filhos) são tão frágeis, quase como peças de porcelana que não aguentam um suspiro mais profundo ou umas lágrimas, mais ou menos inconvenientes, que caem pela cara a baixo.
É verdade, ninguém gosta de falhar, mas o fracasso é uma parte normal da vida. Na maior parte das vezes, o fracasso faz “disparar” dentro de nós uma resposta emocional para limitar os danos provocados por essa falha e para lançarmo-nos por um caminho de sucesso que exige que exploremos em pleno todo o nosso potencial. Ora, a forma como lidamos com essa resposta emocional, depois de um fracasso, distingue a sua utilidade, ou pelo contrário, o seu sofrimento. Seja qual for a situação, ser pró-ativo é sempre uma opção melhor do que enfiar a cabeça na areia e desejar que a falha nunca tivesse acontecido.
Falhar não significa que não valemos nada, ou que nunca vamos conseguir as coisas que desejamos, num processo de autodepreciação que coloca em causa o nosso valor como pessoas. É sim uma oportunidade de perceber onde se falhou e como se pode melhorar, reforçando a confiança em si e focando-se nas suas forças e nos seus melhores recursos. Só assim podemos percorrer o caminho que nos leva à verdadeira felicidade.
Marco Gomes