No país já não há governo, Passos Coelho de todo não o faz, ou quando faz, faz asneira, como nos recentes casos da colocação de professores e da Justiça com o Citius. Perdida desde há muito a imagem de eficácia e competência, restava ainda a Passos Coelho a cultivada e salazarenta imagem de homem austero, de Massamá, da classe média, que passeia o cão à noite e vai à praia de saco de plástico na mão (presumivelmente com uma carcaça e duas bananas), sendo que tudo o que fazia era pelo bem do país, sem qualquer interesse pessoal. Quando instado a explicar fantasmas de um passado que se vislumbra sórdido, encena um jogo de sombras e contradições, refugiando-se atrás de instituições, sabendo à partida que a estas não compete pronunciarem-se sobre factos, que o tempo misericordioso fez prescrever, tentando fazer passar essa não pronúncia, por absolvição. Com este pano de fundo, Costa venceu por larga maioria sem ter de dizer ao que vinha, quais as suas propostas, que compromissos assumiria para o futuro. Chegou e disse “eu estou aqui, sou melhor que o Seguro, quero o lugar para mim”, com o que ganhou as primárias, sem grande esforço, pois, no país, apenas Seguro não entendeu que a oposição que fez ao PSD não foi consistente nem eficaz e que teria de dar lugar a outro que tenha possibilidades de “capitalizar” com o previsível descalabro eleitoral do PSD. O país merecia que nesta campanha se tivesse aproveitado a oportunidade de discutir diferentes visões dum futuro para todos nós, ao invés de uma luta fratricida. Assistiu-se a uma campanha feia, sobretudo da parte de Seguro, que assumiu uma postura de vítima de lesa-majestade, centrando a sua ação em ataques pessoais ao seu adversário, indo ao extremo de lhe chamar “traidor”, deixando atrás de si um rasto de terra queimada, afirmando que se não fosse ele, seria a desgraça. Foi uma campanha feia e triste, não se discutiram ideias ou políticas como era imperioso, mas apenas pessoas. Nesta mesma coluna pronunciei-me a favor de Costa por considerar que este representa alguma esperança de fazer uma oposição mais consistente e fomentar uma alternativa ao atual governo que o país desespera. Costa começou mal. Não disse o que pensa nem o que quer, na vitória não dirigiu qualquer cumprimento ou palavra a Seguro e não resistiu, no dia seguinte à “revanche” gratuita de atirar acintosamente um cravo para a plateia como resposta extemporânea a Seguro. Os vencedores querem-se generosos. Costa não o foi e no meu entender, tal atitude não augura nada de bom. Por aqui assiste-se a uma situação de certo modo semelhante, um governo que não o é, os cinco pilares do andor que suportou Alberto João Jardim durante 40 anos e 45 vitórias, brigam como comadres desavindas, deixando transparecer e confirmando mesmo o que todos desde há muito comentam em surdina, a baixeza, a corrupção, a chapelada, o favorecimento, o clientelismo, sempre denunciados e sempre negados, porque quem se pronunciava contra, era contra a “átonomia” era traidor, da Madeira velha, mação ou comunista. Nesta região da Madeira, que se intitula autónoma, ao contrário do que se passa no resto do país, na área socialista ou social-democrata não existe nenhum Costa, ninguém com folego, capaz de promover uma vaga de fundo, uma alternativa credível ao jardinismo. Por cá o PS não tem uma ambição de poder, conforma-se em ser apenas oposição, satisfeito com os empregos e as senhas de presença, até porque, de vez-em-quando sempre se arranja uns lugarzitos de assessor na câmara para alguns dos rapazes mais chegados. Por cá, temos um Seguro, falta-nos um Costa mesmo com defeitos. Ainda nos arriscamos a que, no fim do processo de lavagem e branqueamento dos cinco pajens de Alberto João Jardim, nos surja o sobrevivente, o que tenha logrado expulsar os irmãos do ninho, virgem e impoluto (espelho meu, quem é que é mais bonito do que eu?), a formar governo, perpetuando com ligeiros retoques modernos de maquilhagem a mesma lógica e o mesmo pântano no futuro, continuando a tão badalada e revindicada autonomia a ser propriedade exclusiva dum homem só, como o foi até agora.
Helder Melim