O desenrascanço é referenciado como uma das principais virtudes dos portugueses. É normalmente visto como uma espécie de capacidade inata de resolver problemas com escassos meios e “em cima da hora”. O mestre do desenrascanço é, muitas vezes, encarado e idolatrado como um salvador, um verdadeiro herói do pronto-socorro. Seja no seio da família, na escola, no desporto, nos negócios, em viagem, etc.
O que muitas vezes, demasiadas vezes, não se questiona, é se poderíamos ter feito algo que evitasse a necessidade de um desenrascanço. Será que a maioria dessas situações acontecem porque não houve uma visão estratégica e um planeamento adequado e atempado? Porque não se analisaram suficientemente bem as situações e as suas implicações? Porque não se equacionaram e tiveram em conta diferentes cenários e não se estudaram e treinaram, de forma adequada, diferentes possibilidades de resposta?...
É evidente que, por melhor que se planeie, não se pode controlar tudo, há sempre espaço e tempo para a imprevisibilidade (que também se planeia). Contudo, quanto melhor nos prepararmos, mais probabilidades teremos de ter sucesso sem ser necessário depender da sorte ou de um salvador de última hora.
Veja-se como a linha entre o desenrascanço e o expediente, que subverte a lógica dos processos, é muito ténue.
Não é, assim,de estranhar que, desde muito cedo (na escola, no desporto, no grupo de amigos, …), comecem a despontar verdadeiros mestres da manipulação e da vigarice, alimentados por um contexto permissivo, que não valoriza o esforço e não premeia o mérito, que não estimula a realização de obra útil mas sim a encenação e o trabalhar “para a fotografia”. Sendo por isso natural que, mais tarde, uns se transformem no típico “chico-esperto”, enquanto outros se aprimorem e transformem em autênticos “bandidos” (alguns com colarinho branco) que irão influenciar, de forma significativa, a nossa qualidade de vida individual e colectiva.
É conveniente que quem tem responsabilidades no processo pedagógico (pais, professores, treinadores, jornalistas, dirigentes, políticos, …) não esconda a cabeça na areia, se deixe de endeusamentos e se preocupe mais com a produtividade e o rendimento (não só a nível financeiro) que é obtido em função dos investimentos feitos.
Não pode valer tudo para alcançar os objectivos. Até porque, se forem ultrapassados certos limites, dificilmente se poderá voltar para trás sem que existam elevados custos.
Porque será que ciclicamente estamos de tal forma aflitos que não há desenrascanço possível? Será a nossa sina ou será porque não aprendemos e continuamos a cometer os mesmos erros e a fazer as mesmas asneiras?
Hélder Lopes