Olho a realidade à volta e retenho o que de pior me surge para dizer, mais do mesmo sempre. No entanto, mais adiante consola-me o sonho dos poetas que nunca desistem mesmo que o mundo os mate, porque os poetas só morrem por causa do mundo, em luta com a ditadura do mundo. Este mundo concreto de homens e mulheres extraordinários, mas outros e outras, carrascos que se alimentam da destruição dos outros, semeando a crueldade do sofrimento e da morte. Mas, é mão destes que também quero morrer. Isto é, na luta imparável com a ditadura do mundo. Não me peçam para desistir dessa luta.

Porque não será para menos, se me inspira a Natália Correia, que no seu exercício verbal o disse assim de forma lúcida e inspiradora para nós: «Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever. / Ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer». A poesia é o «alimento», que nos fortalece para levantarmos o edifício da vida, inspira-nos na luta contra os senhores do tempo, faz-nos discernir o que é e a quem se destina o bem comum.

Mas, eles são políticos, banqueiros, capitalistas, corruptos, vilões da grande injustiça, ladrões, aldrabões, egoístas, gananciosos, corruptos e todos os que matam o «alimento» que é a poesia. Então de si mesma dirá para que desse chão da morte os poetas também nasçam, como Jesus no Evangelho confirma: «Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto» (Jo 12,24). Ao lado deste anúncio, profetizou a Natália Correia para si mesma e para nós: «Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos / Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava / Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos / Sou de mim mesma pomba húmida e brava». Se não fosse «assassinada» pela ditadura do mundo, teria feito 90 anos a 13 de Setembro de 2013.

Porém, hoje mesmo quero ter sobre a realidade o olhar de Jesus. Um olhar de que os campos estão maduros, as espigas douradas e faltam os ceifeiros ou os trabalhadores, que dos quais se lamentava Jesus serem poucos. E como são poucos neste nosso tempo, aqueles que não se comovem com a realidade, não têm uma palavra para dizer e muito menos haverá predisposição para lutar contra essa realidade ditatorial que nos consome os dias, a carne e os ossos. Mas é aquele olhar que me guia, esse olhar que vê, como diz São Paulo, que o mundo está grávido de Deus. Ou, inclusive já está à porta do parto em lugares e em pessoas onde ninguém esperava nada de nada. É isto que me dá esperança. Pois, como alguém também o disse sabiamente, pode faltar tudo, pão, água, casa, roupa, carro e tudo, a esperança é que não.

Invoco a «perfeita alegria» de São Francisco de Assis e de Francisco de Roma para acreditar ainda profundamente que o essencial para nós cristãos é estarmos cientes que quando todos nos aplaudem, alguma coisa não está bem. Por isso, faz impressão que o ser Igreja entre nós não sofra, não seja atacado porque falou, denunciou e esteve lá nas «periferias» que ninguém quer saber. Não sofre, porque não parece - espero que me engane - se incomodar com a tragédia do desemprego, que conduz à fome, à miséria de tanta gente que está à beira do caminho. A mentira prevalece. A injustiça não tem nenhuma entidade que a combata. Por conseguinte sou também daqueles que defendem que desatar as iras da ditadura do mundo, não é garantia de que as coisas ficarão bem, mas é melhor do que os louvores, as palmas e palmadas nas costas, as condecorações e tantos salamaleques que atribuem os senhores do tempo aos senhores do templo.

Não sou só eu que penso e digo isto, reparem no que disse alguém que todos conhecem: «Os corruptos são um perigo, já que são adoradores de si mesmos. Só pensam neles e consideram que não precisam de Deus» (Papa Francisco, missa na residência Santa Marta). Há corruptos por todo o lado, até dentro das estruturas da nossa Igreja. Basta lembrarmo-nos dos «corvos» do Vaticano? – Também os há entre nós. Espero que a coragem de os combater não se fique só pelos corredores vaticanistas mas chegue a todo o mundo.

José Luís Rodrigues