Durante anos, o maravilhoso mundo da campanha autárquica foi organizado em função do território, distribuindo-se o inusitado e o cómico na medida dos poderes que ambicionava cada concorrente à coisa pública.
Não mais. Bendita internet, benditas redes sociais, bendita a página “Tesourinhos das autárquicas” e o acesso às campanhas de todo o País. Por incúria ou excesso de zelo, modéstia ou ambição, infelicidade ou simples acidente, está lá tudo. Um senhor no cartaz de dois partidos diferentes (nome de guerra? “Costela”). Descontos com o patrocínio de um partido. Uma candidata a vereadora vestida de dama de honor. ”Joca”, candidato à Câmara. João Vieira Pinto e Eusébio. Um “Movimento Independente do Bico”.
Escusa procurar, leitor, um fio condutor ou um denominador comum que o acuda. Esse denominador existe, mas corresponde a uma amálgama de slogans inócuos, insultos ao espectro cromático processável pelo olho humano, cartazes montados no Word 98, e hinos de campanha que ofenderam a propriedade intelectual de Emanuel e José Malhoa, e só Deus sabe o que farão à sua.
Mas este é o tipo de comédia que nos defende de uma tristeza profunda. No fundo, todos julgámos viver num país um pouco mais civilizado e educado, onde este tipo de truques, descuidos e falhanços não vingassem ou sequer passassem pela cabeça de aspirantes à coisa pública.
Quando nos devolvem a soberania, as eleições devolvem-nos também as dúvidas.
Dúvidas quanto a se Portugal não terá mais cargos autárquicos do que pessoas com a capacidade de sorrir para uma fotografia, quanto mais governar.
Quanto a se as campanhas não se rebaixarão num esforço de alcançar o eleitor comum (o tal que Churchill dizia ser “o melhor argumento contra a Democracia”), e, alcançando-o, se não o condescendem e embrutecem também.
Sobretudo, quanto a se merecemos ser tratados como hedonistas crónicos, que desconhecem as atribuições e os limites aos poderes das suas Autarquias, de voto disponível e capturável por todos os expedientes que dispensem a inteligência e o senso comum.
Provavelmente não. O mais provável é existir tanto de arcaico e ineficiente na distribuição e forma do poder autárquico como há no estilo. O mais provável é existirem divisões territoriais a mais. O mais provável é que menos Autarquias tivessem mais concorrência no acesso ao poder e fossem melhor governadas (ou por melhores governadas). O mais provável é que Autarquias com mais população tivessem eleitores mais heterogéneos e difíceis de viciar, que exigissem um discurso mais consistente. O mais provável é a melhoria dos meios e vias de comunicação praticamente o exigirem. O mais provável, ainda por cima, é que saísse mais barato.
O mais triste, porém, e o mais certo, é a ideia acabar sempre adiada e enterrada por um interesse político às cavalitas de um argumento emocional – o de todos querermos a “nossa Câmara” e a “nossa Freguesia”, independentemente de para que sirvam e a quem sirvam.
Por ora, resta-nos votar, ainda que apesar da campanha, e não por causa dela. Sob pena de merecer, abstendo-nos, ser destes tesourinhos o baú.
Pedro Fontes