Padre Martins Júnior (ex-tenente capelão graduado, em Cabo Delgado, norte de Moçambique, 1967) Nem queria acreditar: ao sair da porta, na quotidiana hora sétima da manhã, dei com os pés em cima de um sobrescrito da Câmara Municipal de Machico. Abri-o mais tarde e deparo-me com um convite para a inauguração de um monumento às vítimas da guerra colonial. E eu que ando a tentar esquecer os crimes de agressão perpetrados pelo regime fascista contra aqueles que viviam em terra sua, a terra que desde sempre lhes fora dada por Deus para nela produzirem e aí serem felizes. Há quarenta e quatro anos que ando a apagar do meu ecrã uma viagem de 20 dias e 20 noites entre mar e céu,, com cerca de 2.000 seres humanos no bojo do velho “Niassa,”, empancados como gado para canhão… esquecer as G3 que puseram à força nas mãos de jovens arrancados à paz das suas famílias… o coração aos saltos em cima dos “unimogs”, à espera da primeira emboscada na berma da picada…os que choravam, a cabeça escondida nas mãos, atrás da caserna quando o correio não lhes trazia um aerograma da família…os feridos evacuados de helicóptero, os estropiados para toda a vida, enfim, os cadáveres “vivos” atirados para dentro da “berliet” . Há quarenta e quatro anos a tentar esquecer a desumanidade dos usurpadores de um regime de país pequeno que em vez de levar pão, livros, medicamentos aos africanos (de quem se diziam donos) apresentaram-se com armas, munições e canhões-sem-recuo…
E depois de tudo isto, uma I-NAU-GU-RA-ÇÃO! À moda antiga: com o “ministro da guerra” à frente, os lacaios oficiais (agora, candidatos), “a força do público e o público à força”, só faltou a fanfarra, a banda de música, o foguetório, mas não faltou o padre (ainda bem que não foi o pároco de Machico, mas um novinho recruta encomendado) para benzer o quê. Ao vê-lo em reportagem da TV nesse gesto que se exige sagrado e não de aproveitamento político, lembrei-me o dia em que, tinha eu a sua idade, fiz o mesmo gesto em cima de onze covas abertas no cemitério de Mocímboa da Praia, Cabo Delgado, onze tragédias, companheiros meus vítimas de uma mina anticarro e que ajudei a levantar do chão, nessa fatídica manhã de 15 de Agosto de 1967!
E em cima das ossadas dos inocentes faz-se uma INAUGURAÇÃO! Perguntem às sepulturas, perguntem aos mutilados, perguntem aos combatentes de que lhes serve essa inauguração, que apoio receberam do “ministro da guerra” e seus lacaios, além desses míseros e ridículos 150$00 por ano que Paulo Portas decretou, faz já muito tempo, quando ministro da Defesa. Antes, escravos do regime, agora heróis! Suprema hipocrisia! Acabou-se a guerra colonial há quarenta anos. O ano tem 365 dias., E só agora, à beira das eleições, a Câmara e o governo é que se lembram das pobres vítimas da guerra. Envergonhem-se! Respeitem a memória dos mortos inocentes! Ou então, façam um monumento às vítimas de hoje: aos 20.000 desempregados que este regime criou, aos trabalhadores que fizeram estradas já inauguradas e há quatro meses que não recebem…façam um monumento aos fornecedores e empresários a quem não pagam, às farmácias a quem devem milhões, enfim, ao povo que agora vive sufocado pela desonestidade política de quem o explora. E chamem o “ministro da guerra” para inaugurar!
Deixem os mortos em paz, ao menos em tempo de eleições.
Faço minha a censura que ouvi a um munícipe indignado: levem o monumento para a Quinta Vigia para o “vigia” ver-se a um espelho e pense que ele fugiu à guerra por ser protegido de um tio, chefe do salazarismo na Madeira. Só os filhos dos trabalhadores, camponeses e pescadores é que eram mobilizados. Os meninos do regime ficavam bem recachados nas secretarias. Ele que pense e bata no peito, porque se ainda vigorasse o regime que ele serviu, hoje continuavam caídos em combate os nossos jovens em terras alheias, ainda hoje chegavam aos nossos cemitérios soldados, “vindos do outro lado do mar num caixãozinho de pinho”, como bem clamou Reinaldo Ferreira.
Monumento merecem os que debelaram esse sádico regime em 25 de Abril de 1974!