Num recente e oportuno editorial, Agostinho Silva escreveu no D.N-M e transcrevo “.... provavelmente estas serão as eleições autárquicas mais importantes da historia da Democracia na Madeira”. É bem verdade! O tempo que agora vivemos na Madeira, projetou estas eleições para além da dimensão autárquica e são hoje um momento decisivo que poderá trazer consigo o pronuncio, mesmo que tímido e esbatido, de um novo ciclo político que seja mais respeitador dos valores e princípios democráticos. Estas eleições, surgem num momento em que o poder político que governa a região está penosamente desgastado, fragmentado e já dá sinais de uma triste decadência que a História sempre reservou a todos aqueles que se agarram desesperadamente ao poder. Estas eleições, mobilizam pela primeira vez gente sem qualquer filiação partidária e que sai da sua zona de conforto por entender que o seu contributo é necessário para uma vida democrática mais participada e plural. Estas eleições, mostram também uma oposição um pouco diferente. Uma oposição com gente nova, sorriso aberto, olhar franco e sobretudo com um discurso mais limpo e sem chavões politiqueiros. Pena foi que o esforço de convergência que o momento exigia, não fosse entendido por alguns partidos, comprometendo uma estratégia seguramente vencedora. Fará sentido a opção solitária de um ou outro partido no contexto regional? Estas eleições, estão ainda definitivamente marcadas pela eminente renovação interna do PSD-M. Ignorando velhos do Restelo e sem medo de fantasmas, Miguel Albuquerque desenhou e sustentou publicamente o caminho para uma nova liderança. Essa mudança, reconhecida como inevitável é para muitos militantes, urgente. Também o comportamento inaceitável dos dois partidos que repartem o governo da nação, terá que se refletir nestas eleições, mesmo que as suas bandeiras andem escondidas. Quem vota, não pode tolerar a mentira, o cinismo, o desprezo arrogante com que são tratados os mais fracos neste País. Os reformados sabem bem do que falo! Um pouco por tudo isto, estas próximas eleições são seguramente muito importantes e transbordam para além das paredes das câmaras ou juntas de freguesia. Mas sempre que me preparo para tirar o meu cartão de eleitor da gaveta, lembro-me da Sr.ª Camila. Presente na minha infância como braço direito de minha mãe na educação dos seus sete filhos, a Sr.ª Camila foi o reforço oportuno que meus avós enviaram de Trás-os-Montes para conforto de tão numerosa família. Lembro-me que em cada domingo de eleições, a Sr.ª Camila de sapato e carteira de verniz preto, subia a rua a caminho do Liceu D. João III para depositar o seu voto na urna. Embora a curiosidade familiar fosse grande, nunca ninguém se atreveu a perguntar à Sr.ª Camila em quem tinha votado. E o mistério permaneceu insondável. Já acamada e pouco tempo antes de nos deixar para sempre, perguntei-lhe com uma ternura curiosa, em quem votara. Sempre votei em branco, respondeu-me! E acrescentou; os que estão no poder mentem, porque querem lá ficar, os outros também mentem, mas para poderem lá chegar. E se esta verdade tão atual da Sr.ª Camila é de uma lucidez indiscutível, já a opção pelo voto em branco é discutível. Mas foi a sua pedagogia pouco ortodoxa que mudou a minha vida e conseguiu fazer de mim um amante de toda e qualquer sopa. Conta a lenda familiar que cansada de me ver cuspir cada colher de sopa, a Sr.ª Camila terá ameaçado: se não come a sopa toda, com uma chave de parafusos desaperto-lhe o umbigo e cai-lhe a pilinha. Espero que a Sr.ª Camila não fique triste quando lá do céu conseguir ver que no dia 29, eu não votei em branco. Em compensação, a minha obediência é total no que diz respeito às sopas. Não hesito e como a sopa toda não vá a Sr.ª Camila zangar-se. Prefiro não arriscar!
Manuel de Brito