Dois tipos de reacções face à realidade me causam aflição, a primeira é a de negação, a segunda é a do fatalismo. A primeira manifesta-se em inúmeros comportamentos que são “orgulhosamente” exibidos: recusar-se a acompanhar a informação; não abordar qualquer assunto que tenha a ver com a crise; elogiar e reforçar quem fala sobre trivialidades e, finalmente, abster-se de tudo o que seja assumir uma opinião ou participar numa conversa séria. É uma opção de vida! Tenho que a respeitar ainda que tema as consequências. É uma opção explicável à luz da psicologia e da sociologia. Já provocou inúmeras catástrofes mas é uma patologia individual e colectiva que é tanto mais alargada quanto os problemas são graves. A outra das reacções é ainda mais preocupante porque resulta da reflexão sobre os problemas, da aparente lucidez quanto às suas causas e efeitos mas traduz-se no imobilismo cívico. Tenho observado muita gente boa, por quem nutro admiração e respeito, atacada por este fenómeno. Vão caindo no desalento e afirmando que não há alternativa, que resistem apenas por imperativo ético a esta ordem totalitária e repressiva em que vivemos. É mais inquietante esta postura porque representa o triunfo do sistema. É neste caldinho estéril e passivo que o poder nos quer ver, de resto, um estudo recente, publicado na prestigiada revista Science, mostra como a inquietação com os problemas financeiros afecta as capacidades cognitivas e diminui as competências individuais e isso é de uma eficácia extraordinária para o poder. Posto isto, impõe-se fazer uma confissão pública: também sofro a tentação de fugir e entrar em negação, também capitulo perante a dureza da realidade, das contradições violentas da condição humana e dos braços tentaculares do sistema e apetece-me, desesperadamente, optar pelo cinismo filosófico. Mas sei que há alternativa, sei que uma outra sociedade é possível. Estou certa de que cada um pode dar o seu pequeno/grande contributo. Sei que a Democracia não está completamente minada e que dispõe dos instrumentos necessários à vitória da alternativa. Vou continuar a militar partidariamente, vou continuar a exercer o direito de voto e sobretudo, a usar dos direitos, liberdade e garantias que a Lei me confere. Vou continuar a tentar cultivar a esperança e a solidariedade como valores fundamentais da nossa condição humana.

Isabel Cardoso