“Ken”, disse Lyndon Johnson a J. Kenneth Galbraith, seu consultor económico, “falar de Economia é muito como urinar pela tua perna abaixo. Parece muito quentinho para ti, mas não o é para mais ninguém”.
É um risco que tenho de correr – o risco de falar de Economia, entenda-se. Porque tenho sofrido, leitor. Tenho sofrido entre amigos, colegas e anónimos. Fui vítima das mais duras e pessoais invectivas e da mais malévola difamação. Tudo por – enquanto leigo, entenda-se – ter dito que – partindo de certos pressupostos, entenda-se – a austeridade seria necessária para melhorar a nossa Economia.
Quando recebi a notícia de que Portugal teria crescido 1,1 % no segundo trimestre, ousei pôr a cabeça fora da trincheira. Não esperava hurras, coroas de louros ou palmadas nas costas. Mas ousei esperar – oh, ingenuidade – o benefício da dúvida.
Nada disso. Fui bombardeado com o cínico – que o crescimento é relativo ao PIB, que está baixo, que 1% é poucochinho, que é sazonal. Com o estatístico – que o PIB continuava a descer em termos homólogos. Até com o inusitado – que seriam efeitos do veto do Tribunal Constitucional!
De volta à trincheira, já no ápice da loucura, revejo as notícias, a literatura. Afinal, o ano passado também teve estações, e o PIB sempre diminuiu. Afinal, poucochinho continua a ser melhor do que nada, e bem melhor do que -1. Afinal, queixar-se de não crescer em termos homólogos é uma falácia Nirvana, a mania de embirrar com as coisas boas só porque não são perfeitas.
Afinal, parte dos subsídios têm sido pagos em duodécimos (a totalidade só será reposta em Novembro) e o seu valor é insusceptível de afectar assim tanto o PIB. Afinal, crescer continua a ser produzir (e vender) mais bens e serviços do que no passado. Criar mais do que se destrói.
Estou recomposto, leitor. E lembro, antecipando o martírio, que o factor perverso não é o crescimento presente, mas o crescimento passado. Lembro que o crescimento depende da produtividade, que por sua vez depende de factores de produção, entre eles o capital.
E lembro que o capital é especial. É um factor de produção produzido – para produzir, tem de ter sido produzido. Para construir uma casa, alguém teve de cortar a madeira.
O dinheiro é capital – mas é capital que pode produzir no pressuposto de vir a ser produzido. É madeira que pode construir casas quando a árvore ainda é um rebento.
Parece mágico, mas não é. Tem regras – regras místicas, regras fatais. A fundamental? Os machados vêm sempre cortar – e querem sempre mais madeira. Era a esta característica do dinheiro que se referia Martin Amis quando disse que “o dinheiro não se importa se dizemos que é mau. Ele vai de força em força. É uma ficção, uma adição, e uma conspiração tácita.”
O dinheiro é de facto uma máquina autista. Mas é por isso que este crescimento é tão especial. Aconteceu sem doping. Com impostos altos, com crise internacional, com os negócios no osso. Quando o dinheiro conspira contra nós.
Ainda que por pouco, ainda que só por agora, não estamos a criar emprego à custa dos empregos dos que estudam. Não estamos a ganhar o dinheiro que permitiria aos nossos filhos ficar no país. Não estamos ao sol das obras públicas acessórias, na foz do crédito fácil, ou apoiados nos ombros de despesas públicas gigantes.
O dinheiro continua de força em força. Mas esta – por ténue, por prematura que seja – é a nossa força. Por uma vez em muito tempo, a ficção foi transformar uma boa notícia numa má, a adição dizer mal, e a conspiração atribuir ao Tribunal Constitucional e ao Estado o mérito que é só dos portugueses.
Não crescemos por causa do Estado, mas apesar dele. Não crescemos com o dinheiro do futuro, apesar do presente. Crescemos com o dinheiro do presente, apesar do futuro. Apesar de tudo.
Não se descurem os sinais. São vitais.
Pedro Fontes