O tempo suspende a respiração para olhar a eternidade.

As pessoas são o lugar mais encantador que podemos visitar. As pessoas são o lugar mais encantador que podemos habitar.

As grandes personalidades acotovelam-se em ruas labirínticas de mausoléus esculpidos em pedra, suspensos pelo olhar vigilante dos anjos desenhados em pedra perpétua.

Os grandes cemitérios são delicadas pétalas de rosa que ameaçam dissolverem-se em pó. Impregnam o ar de um aroma silencioso que pronuncia um rumor de campos floridos a murchar, habitados por fantasmas e ausências.

Bastou-lhe apenas candidatar-se ao lugar para ser contratado. Não havia muita gente, tirando os turistas, disposta a passar os dias no cemitério. A partir do momento em que foi contratado, os seus dias tornaram-se diferentes. As noites, agora, eram refúgios fugazes e hesitantes por onde o corpo se encontrava. Cada vez mais apressado e fugidio. Tornara-se ainda mais solitário e mais silencioso. Porque sentia saciada a fome da alma, que se alimentava dessas relacções espirituais, e assim parecia-lhe que andava mais apaziguado nessa ânsia do viver. Para além do tempo que passava sentado numa campa, também se distraía a olhar em redor. Gostava de observar o comportamento delirante dos visitantes. Atentos aos pormenores das campas. Aos vestígios que ficavam… Aos sinais… As bocas escancaradas de espanto. Debruçadas sobre uma fotografia. Uma bugiganga. Uma lembrança deixada por alguém que tinha saudades… Agradavam-lhe em particular as pessoas que por ali deambulavam sós. Estas, sentia-as mais próximas de si, do seu estado de espírito. Enredadas em melancolia, disponíveis para mergulhar no interior da existência, para se perderem em águas profundas. Sentimentos. Eram nómadas dos afectos. Como ele. Apenas nesse perfeito desequilíbrio imaginava ser possível viver. E, no entanto, sabia tão pouco dessa transparência iluminada do sentir que inspirava do hálito amargo e doce dos poetas defuntos…Ao mesmo tempo que sentia tão profundamente a vida, e falava sobre ela com ardor, ele era pouco mais que uma criança inocente. E isso transparecia nos mais honestos desabafos, mesmo que pronunciados em voz baixa, quase inaudível. Como quando temia essa desilusão amorosa de não ter ainda encontrado a alma gémea, aplicando precisamente esta expressão banal e datada, mesmo infantil, alma gémea, a essa imagem de um amor idealizado e insubstituível.

Todos os dias percorria, maravilhado, os rostos dos anjos, os rendilhados que enfeitavam as campas mais trabalhadas, os motivos florais, as portadas, as mansões senhoriais em formato de pequeno apartamento adormecido perpétuo, com as maravilhosas esculturas e os mais sombrios rostos a espiar as almas adormecidas, que ia descobrindo nas curvas daquele jardim labiríntico. Num desses passeios deparou-se com o mausoléu de ar romântico, que deitava lado a lado, em pedra esculpida, o corpo de um homem e de uma mulher. Repousavam por baixo do que parecia ser um castelo de um conto de fadas, suspenso sobre quatro pilares de mármore. Curioso, debruçou-se á procura dos nomes, e foi assim que descobriu Abelardo e Heloísa . Depois foi uma questão de pesquisa, nos folhetos do cemitério, no computador, sobre quem eram eles. Com o passar dos dias, cada vez saía menos à rua.

…como seria viver hoje uma história de amor…

Um amor seduzido pela inteligência. Um homem e uma mulher atraídos pelo pensamento…

Mas todas as histórias, quando mergulhamos nelas, revelam um lado obscuro, zonas de sombra… Descobriu que Pedro Abelardo tinha sido um filósofo polémico da Idade Média. Queixava-se da incompreensão, da inveja…

Apesar da idade, ele sabia que ninguém é apenas, somente, uma coisa. Todas as pessoas dentro de si. E Abelardo era excessivo, incoerente. Numa das versões, consta que Heloísa estaria a passear com uma criada, numa tarde, e que terá reparado num grupo concentrado em redor de alguém que falava. Quis o destino que um vento se levantasse nesse momento e roubasse o seu chapéu que foi flutuando no ar, aterrando precisamente aos pés do jovem filósofo. Cruzaram o olhar e foi o que bastou para arder os corações. Ela logo tratou de o conquistar pelo espírito, passando a estudar temas que a ele lhe interessavam , como a filosofia de Platão, Ovídio e a alquimia. Poucas ocasiões na história da humanidade, uma jovem donzela, formosa e de boas famílias, terá recorrido a estratégias do saber, e não à sedução pela beleza, para conquistar o seu amado. E parece que resultou. Um amor descontrolado, transgressivo. Heloísa acabou por ficar grávida. Casaram, com o acordo do tio dela, na Catedral de Notre-Dame, já depois de ter dado á luz, escondidos do mundo e no recanto dos olhares indiscretos do povo. Mas pelos vistos, muito para descontentamento da donzela, evocando livros de pensadores da época para argumentar que o « sábio não deve casar », como recordava mais tarde Abelardo nas suas memórias, enumerando os inconvenientes de uma « aliança legítima »…

Heloísa deixa-o a braços com a pergunta essencial. « Diz-me que relacção pode haver entre um livro ou uma escrivaninha e um berço, entre um livro ou uma estante e uma roca, entre um estilo ou uma pena e um fuso. Enfim, haverá homem, que entregue às meditações da Escritura e da Filosofia, possa suportar os vagidos de um recém-nascido, as canções de uma ama a consolá-lo, a agitação ruidosa das criadas e servas nos arranjos da casa? »

O pensador registava que ela defendia o « título de amante » como sendo mais « honroso » para ele, « e mais desejado por ela», que o queria conservar « apenas pela força da ternura, e não pelas cadeias da união conjugal emancipada… O fim foi trágico de qualquer modo. O povo soube dessa união não assumida, o tio resolveu mudar de posisão em relacção aos apaixonados, contratando dois carrascos que entraram sorrateiramente, uma noite, no leito de Abelardo e o castraram. Abelardo tornou-se um dos eunucos mais famosos da História, reduzido a « abominação perante Deus » e lembrando que mesmo os animais, quando mutilados no sexo, nem sequer eram aceites em sacrifício. Nunca mais os amantes se amaram. Ela recolheu-se a um convento e ambos se entregaram ao trabalho. Ele terá construído uma escola ao lado do convento onde Heloísa se retirara. Morreu com 63 anos, ela ainda era viva. Foi sua a iniciativa de construir uma sepultura devidamente ornamentada para o acolher. É o que consta de uma das versões. Pouco depois, morria. As alunas de Heloísa decidiram enterrá-la ao lado do amante. Diz a lenda que quando a sepultura de Abelardo foi aberta para a receber, o coveiro deparou-se com o corpo do filósofo intacto e de braços abertos. Encontrava-se pronto para acolher em si a sua amada.

Renata Camacho