Triste paradoxo este: onze meses de declarações incendiárias, e quando a Madeira arde não se justifica interromper as férias E em Agosto de 2013, o Inferno regressou à Madeira. Centenas de madeirenses voltaram a passar por horas de angústia e momentos de pânico. Novamente houve cidadãos que perderam quase tudo, vendo-se subitamente desalojados e dependentes da solidariedade alheia. No momento em que escrevo este texto chega-me a notícia de pelo menos uma vítima mortal, na sequência dum acidente envolvendo uma viatura militar. Os indómitos soldados da paz lutaram e continuam a lutar até à exaustão, e não há quem não o reconheça. A unanimidade no elogio ao esforço e abnegação dos bombeiros abrange até aqueles que no passado os puseram em causa, e que agora optam por comentar à distância. Triste paradoxo este: onze meses de declarações incendiárias, e quando a Madeira arde não se justifica interromper as férias para estar no terreno, incentivando, coordenando, confortando. Miguel Albuquerque fê-lo, e os funchalenses não viram ali aproveitamento político, mas um autarca que dá a cara e o corpo ao manifesto pelos munícipes nos momentos difíceis. José Manuel Rodrigues também o fez, quando seria mais confortável e seguro ficar na sede de candidatura, de fatinho e gravata, a debitar vacuidades - como outros fizeram. Mas neste caso, as virgens pudicas apontam o dedo e guincham “demagogia”! Mais uma vez, à semelhança dos anos anteriores em que a tragédia nos atingiu sob a forma de labaredas, o eloquente Rocha da Silva foi aos telejornais esgrimir argumentos contra os meios aéreos, que servem para todas as ilhas menos para a nossa, de acordo com fundamentados estudos que eu muito gostaria de ler. Desta vez, lançou um novo dado: está provado que quanto mais se investe no combate aos incêndios, maior é a sua incidência. Pior ainda, onde há meios aéreos os pirómanos entram num frenesim incendiário, só para ver os helicópteros em acção. Seguindo esta lógica, a um investimento de ZERO na prevenção e combate aos incêndios, deverão corresponder ZERO incêndios… Será assim? Pois bem, não se pode andar neste diz-que-diz todos os anos. Urge debater tudo o que se relaciona com a prevenção, a limpeza (quer dos espaços públicos quer dos privados), a burocracia associada às queimadas e as eventuais alternativas, a educação ambiental, a reflorestação e sim, cada vez mais, aos meios aéreos. A criminalização dos “terroristas” também tem lugar neste debate, mas com seriedade e não culpando a Justiça Portuguesa de todos os males da Região. O meu repto é que se envolva neste debate toda a sociedade madeirense, entidades públicas, partidos políticos e cidadãos. Do muito que tenho ouvido nestes últimos dias, e sem pretender julgar a validade das propostas, deixo como contributo algumas dessas opiniões: Prevenção e limpeza – Quando há incêndios há sempre quem se lembre que o exército poderia perfeitamente executar regularmente quer acções de limpeza, quer de patrulhamento. É possível, é viável? Responda quem sabe. Outro exemplo: os adolescentes que todos os Verões se entretêm a jogar às cartas e a namoriscar nas praias da Região, ostentando slogans na roupa que anunciam “Jovem em Formação”, não poderiam ter a sua primeira experiência de trabalho e de serviço à comunidade nas serras? É muito duro? A lei não permite? E os reclusos, é irrazoável propor que mitiguem a sua dívida à sociedade trabalhando umas horas extra nos meses que antecedem o Verão? Será inconstitucional? Viola-lhes os direitos humanos? Burocracia – Queixam-se os proprietários que fazer uma queimada é burocrático e caro. Para além dos meses em que não são permitidas, no resto do ano os custos e as exigências desencorajam a maioria das pessoas, que acaba por deixar o matagal progredir. Há também a questão dos proprietários ausentes e sem paradeiro conhecido, cujos terrenos ninguém limpa. Neste caso não faria sentido que os municípios assumissem esse ónus? A invasão de propriedade privada não se justifica se estiver em risco o bem comum? E alguém já se lembrou de incentivar e promover como negócio, a recolha e transformação destes resíduos? Em vez de queimar, reciclar. Não há mercado para a transformação de galhos e erva seca em acendalhas e quejandos? É um disparate? Desculpem, é uma ideia… Os foguetes dos arraiais também merecem reparo, não tanto pelo risco potencial de provocar incêndios, mas pelo desrespeito de haver quem festeje enquanto o vizinho do lado sofre. A fé e a religiosidade não têm nada a ver com os foguetes que se queimam, e duvido que algum Santo se ofenda com a ausência de foguetório, desde que as orações lhe continuem a chegar convictas. Finalmente, os meios aéreos – mas aqui há matéria para um artigo inteiro. “Passo a bola” aos leitores, contribuam para este debate. Raul Ribeiro

Triste paradoxo este: onze meses de declarações incendiárias, e quando a Madeira arde não se justifica interromper as férias

E em Agosto de 2013, o Inferno regressou à Madeira. Centenas de madeirenses voltaram a passar por horas de angústia e momentos de pânico. Novamente houve cidadãos que perderam quase tudo, vendo-se subitamente desalojados e dependentes da solidariedade alheia. No momento em que escrevo este texto chega-me a notícia de pelo menos uma vítima mortal, na sequência dum acidente envolvendo uma viatura militar. Os indómitos soldados da paz lutaram e continuam a lutar até à exaustão, e não há quem não o reconheça. A unanimidade no elogio ao esforço e abnegação dos bombeiros abrange até aqueles que no passado os puseram em causa, e que agora optam por comentar à distância. Triste paradoxo este: onze meses de declarações incendiárias, e quando a Madeira arde não se justifica interromper as férias para estar no terreno, incentivando, coordenando, confortando. Miguel Albuquerque fê-lo, e os funchalenses não viram ali aproveitamento político, mas um autarca que dá a cara e o corpo ao manifesto pelos munícipes nos momentos difíceis. José Manuel Rodrigues também o fez, quando seria mais confortável e seguro ficar na sede de candidatura, de fatinho e gravata, a debitar vacuidades - como outros fizeram. Mas neste caso, as virgens pudicas apontam o dedo e guincham “demagogia”! Mais uma vez, à semelhança dos anos anteriores em que a tragédia nos atingiu sob a forma de labaredas, o eloquente Rocha da Silva foi aos telejornais esgrimir argumentos contra os meios aéreos, que servem para todas as ilhas menos para a nossa, de acordo com fundamentados estudos que eu muito gostaria de ler. Desta vez, lançou um novo dado: está provado que quanto mais se investe no combate aos incêndios, maior é a sua incidência. Pior ainda, onde há meios aéreos os pirómanos entram num frenesim incendiário, só para ver os helicópteros em acção. Seguindo esta lógica, a um investimento de ZERO na prevenção e combate aos incêndios, deverão corresponder ZERO incêndios… Será assim? Pois bem, não se pode andar neste diz-que-diz todos os anos. Urge debater tudo o que se relaciona com a prevenção, a limpeza (quer dos espaços públicos quer dos privados), a burocracia associada às queimadas e as eventuais alternativas, a educação ambiental, a reflorestação e sim, cada vez mais, aos meios aéreos. A criminalização dos “terroristas” também tem lugar neste debate, mas com seriedade e não culpando a Justiça Portuguesa de todos os males da Região. O meu repto é que se envolva neste debate toda a sociedade madeirense, entidades públicas, partidos políticos e cidadãos. Do muito que tenho ouvido nestes últimos dias, e sem pretender julgar a validade das propostas, deixo como contributo algumas dessas opiniões: Prevenção e limpeza – Quando há incêndios há sempre quem se lembre que o exército poderia perfeitamente executar regularmente quer acções de limpeza, quer de patrulhamento. É possível, é viável? Responda quem sabe. Outro exemplo: os adolescentes que todos os Verões se entretêm a jogar às cartas e a namoriscar nas praias da Região, ostentando slogans na roupa que anunciam “Jovem em Formação”, não poderiam ter a sua primeira experiência de trabalho e de serviço à comunidade nas serras? É muito duro? A lei não permite? E os reclusos, é irrazoável propor que mitiguem a sua dívida à sociedade trabalhando umas horas extra nos meses que antecedem o Verão? Será inconstitucional? Viola-lhes os direitos humanos? Burocracia – Queixam-se os proprietários que fazer uma queimada é burocrático e caro. Para além dos meses em que não são permitidas, no resto do ano os custos e as exigências desencorajam a maioria das pessoas, que acaba por deixar o matagal progredir. Há também a questão dos proprietários ausentes e sem paradeiro conhecido, cujos terrenos ninguém limpa. Neste caso não faria sentido que os municípios assumissem esse ónus? A invasão de propriedade privada não se justifica se estiver em risco o bem comum? E alguém já se lembrou de incentivar e promover como negócio, a recolha e transformação destes resíduos? Em vez de queimar, reciclar. Não há mercado para a transformação de galhos e erva seca em acendalhas e quejandos? É um disparate? Desculpem, é uma ideia… Os foguetes dos arraiais também merecem reparo, não tanto pelo risco potencial de provocar incêndios, mas pelo desrespeito de haver quem festeje enquanto o vizinho do lado sofre. A fé e a religiosidade não têm nada a ver com os foguetes que se queimam, e duvido que algum Santo se ofenda com a ausência de foguetório, desde que as orações lhe continuem a chegar convictas. Finalmente, os meios aéreos – mas aqui há matéria para um artigo inteiro. “Passo a bola” aos leitores, contribuam para este debate.

Raul Ribeiro